Entrevista com Luis Perequê por Claudia Ferraz

Luis Perequê - Foto: Ricardo Gaspar
Luis Perequê – Foto: Ricardo Gaspar

Depois de ter balançado o público carioca, a Caravana Paraty passou por São Paulo neste primeiro fim de semana de fevereiro e foi novamente um sucesso. Por dois dias, a  metrópole gigante pôde conhecer de perto a riqueza de alguns dos mais grandiosos bens imateriais da cultura paratiense. Das rodas de jongo e ciranda aos versos de Luís Perequê e batidas do rap quilombola, foram muitas as atrações nas áreas de música, artes plásticas, dança, com espaço para se discutir sobre os caminhos e descaminhos das cidades turísticas e suas consequências para a identidade cultural das comunidades brasileiras como um todo.

Tudo isso movimentou a cena na capital paulista, lotando os espaços do Centro Cultural São Paulo em shows abertos gratuitamente ao público. Público que, por sinal, vibrou com a passagem da Caravana de sotaque tão caiçara, na base do casamento  entre o tradicional e o contemporâneo, com os músicos da terra cantando ao lado de convidados como Sá e Guarabyra, Orquestra Mundana e o rapper BNegão, além do violeiro Noel Andrade e da cantora, compositora e instrumentista Kátya Teixeira, pesquisadora de cultura popular.

“A ideia de mostrar nossa cultura em outras cidades visa criar um intercâmbio que fortaleça nossa identidade cultural”, ressalta Luis Perequê, idealizador do projeto e fundador do Silo Cultural José Kléber, instituto em Paraty que realiza a Caravana com apoio da Eletrobrás / Eletronuclear, inclusive com planos de viagem a outros estados em 2014, para levar aos quatro cantos do País a cultura popular dessa cidade histórica ainda repleta de identidade e tradição.

 

QUEM É LUIS PEREQUÊ?

Luis Perequê - Foto: Ricardo Gaspar
Luis Perequê – Foto: Ricardo Gaspar

 

Aos 53 anos, ele já está na estrada da música há trinta. “Tenho trinta anos de insistência, não de carreira”, costuma dizer o compositor, ao afirmar que seu marco não foi o primeiro CD ou o momento xis em que ficou famoso. Para ele, o início de tudo foi em 1983, quando se viu classificado em um festival de música em Angra dos Reis.  “Foi ali, exatamente a partir dali que eu decidi que faria isso na vida”.

Desde então é o que ele faz: tocar e cantar a cultura caiçara, contando suas doçuras e belezas, falando dos lugares, das flores e dos animais, da mata, do mar e da cachoeira, mas também das ameaças e dos perigos, denunciando invasões. “Sigo misturando meu trabalho de música com a coisa da militância. É assim minha carreira”, diz o autor dos versos  …Quem descobriu o Brasil / Não fui eu nem você nem Cabral / E quem levou o pau-brasil / Não fui eu nem você,  ninguém viu! / Eu brasileiro eu! / Euroafroíndio eu…, da música Eu, Brasileiro, um de seus maiores sucessos.

Múltiplo na essência, Luis Perequê, que nasceu e se criou em Pedras Azuis, zona rural de Paraty, é o intérprete forte e personalíssimo de suas próprias canções. Mas não se diz cantor. E nem se considera poeta, apesar de fazer letras excepcionais, inspirado em uma poética toda sua, de raiz. Seus versos quase sempre brotam fácil da imaginação permanentemente aguçada pelo olhar de quem está vendo tudo, atento aos descaminhos da cultura caiçara e da Mata Atlântica, enquanto corre solta e veloz a transformação social, para ele fruto de equívocos na forma de exploração do turismo na região de Paraty… Livrai-nos,livrai-nos,livrai-nos… , pede Perequê na sua Ave-Maria-do-Mato.

Gilberto Gil discute o Defeso na FLIP 2013 - Foto: Ricardo Gaspar
Gilberto Gil discute o Defeso na FLIP 2013 – Foto: Ricardo Gaspar

Levantou polêmica (e faz pensar) seu conceito de Defeso Cultural, extraído da ideia do defeso de peixes, que proíbe a pesca em épocas de reprodução para proteção das espécies. O movimento propõe a discussão de políticas públicas capazes de preservar a vida cultural das cidades turísticas, ameaçadas pela lógica econômica que vem privilegiando o entretenimento em prejuízo da cultura. A conversa é boa! Está aberta a todos, é apoiada por muitos artistas e chegou a envolver fortemente Gilberto Gil, que na FLIP 2013 participou de uma mesa de debates sobre o tema. Na prática, uma das ações mais diretas do Perequê para ampliar essa discussão foi justamente criar e pôr na estrada a Caravana Paraty. “A Caravana no fundo somos nós, as almas inquietas”, sintetiza ele, levantando sua bandeira e fazendo poesia.

Nascido Luis Carlos Albino Veloso, por que Luis Perequê? Essas e outras histórias ele contou nessa entrevista exclusiva ao www.paraty.com.br. Veja a seguir os melhores trechos da conversa, que acabou enriquecida com a participação inesperada de Carlinhos Antunes, profissional de primeira grandeza, diretor musical da Caravana Paraty.

 

TIMIDEZ E NOME ARTÍSTICO

“Até os dezoito, dezenove anos, eu era de uma timidez assustadora. Meus amigos falavam que eu ia cair dentro do violão… Eu nem tocava, mas cantava minhas músicas.  Havia uma que falava do rio Perequê-Açu, olho d’água que nasce na serra e vem lambendo a terra, até que entra na cidade, e aí vêm os homens e os braços de esgoto. A música tratava dessas coisas e a gente queria mandar para um festival em Ouro Preto, eu, o Zé Kleber. Mas na hora de mandar, os amigos começaram a me sacanear por causa do meu nome. Luis Carlos Albino Veloso não era nome de artista para a canção Perequê-Açu. Acabei ganhando como apelido aquele nome de música. Logo depois fui tocar no festival de Angra, em fevereiro de 1983. Também com o Zé Kleber. Cantei uma música chamada Pedras Azuis, fui classificado e meu nome saiu no jornal: Luis Perequê-Açu. Nasceu assim  o Luis Perequê…

 

MÚSICA E MILITÂNCIA
“As duas coisas vieram juntas o tempo todo na minha carreira. Primeiro porque eu comecei a fazer música falando dos lugares, falando daqui de Paraty, mas  ainda sem intenção ideológica, não havia uma consciência da importância da minha fala. Mas os amigos começaram a me levar para tocar nos encontros, falar dessa questão ambiental, e eu me apresentava falando sobre isso naturalmente. Depois veio o contato com o pessoal da Pastoral da Terra, os encontros para discutir as questões fundiárias aqui em Paraty por meio da igreja católica. Uma pessoa muito interessante na cidade, Madre Jô, fazia esses encontros. Basicamente desses encontros nascia o PT, mais ou menos em 1984. E eu sempre sendo chamado para tocar com os padres, me lembro, lá em Mangaratiba, para onde iam todos os camponeses daqui da zona rural, seu Valentim, seu Orlando Calegário, seu Zezinho da Ilha do Araújo…Minha história veio vindo com essas pessoas…”

 

DEFESO CULTURAL

O nascimento da idéia do Defeso Cultural - FLIP 2010 - Foto: Ricardo Gaspar
O nascimento da idéia do Defeso Cultural – FLIP 2010 – Foto: Ricardo Gaspar

“Comecei a pensar nesse conceito ao participar na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2010 da palestra de Carla Fonseca, sobre Economia da Cultura. Acabei falando também sobre cultura sem economia e passei a dar importância a isso, a essa cultura sem economia que, no fundo, são as manifestações culturais. A partir dali me voltei para o pensamento do que seria manifestação cultural e produto cultural. Quando a gente está discutindo a economia da cultura, estamos falando de produto cultural. Quando falamos de manifestações culturais, nós estamos falando da cultura sem economia, importante para o pilar da identidade cultural do país e dos lugares. Então aí comecei a avaliar que as cidades turísticas, de população flutuante muito forte, o que é o nosso caso, tinha que começar a pensar numa forma de proteger a convivência comunitária. Porque ela é a mãe da cultura. É da convivência comunitária que nasce o exercício cultural, tá certo? Então, no fundo, é esse diálogo, o dia todo, o tempo todo, a vida toda, que dá uma coisa no final chamada cultura, chamada manifestação cultural, identidade cultural. É o grande caldo, exatamente. Aquilo que faz a gente se encontrar nas procissões, se encontrar para chorar nossos mortos, para festejar nossas datas… Eu penso que uma cidade de tão forte população turística deveria respeitar suas datas sagradas. Digo respeitar no sentido de não transformar essas datas em atração turística. E não estou falando de Paraty, não, me refiro às cidades brasileiras. A ânsia da grana faz com que o turismo se  agigante a qualquer preço, fruto dessa economia turística que funciona na base de um motor muito  veloz, capaz de fazer as cidades ficarem lotadas muito rapidamente. Tudo é transformado em entretenimento, não é nem em produto cultural, o que seria uma coisa menos ruim. Por exemplo você escolher uma manifestação cultural para fazer dela um produto cultural… Mas nem isso nós estamos fazendo. Estamos indo ao extremo e isso é grave. Se a gente, na verdade, quer continuar a ser uma cidade de turismo cultural, esse é um aspecto  importante a ser pensado. É aí que nasce essa história do Defeso Cultural, para fazer a gente pelo menos pensar… É um conceito extraído da questão da preservação dos peixes. A exploração chegou a tal ponto que foi preciso essa intervenção de paralisar a pesca nos períodos de reprodução das diferentes espécies. Virou lei e funciona, há o defeso da sardinha, da tainha, defeso do caranguejo, do camarão… Atualmente em Paraty não há mais baixa temporada, quando de alguma forma se conseguia fazer um certo defeso cultural. Mas foi intensa a luta dos últimos anos para manter o turismo em alta o ano inteiro, o que significa uma população o tempo inteiro de recepcionistas. Então essa população não convive mais e, ao não conviver, ela perde sua identidade cultural, concorda?  Em linhas gerais eu digo que uma procissão sai por estar ligada à religiosidade, é uma manifestação de devotos que acontece sem depender se tem ou não turista…Em Angra dos Reis, em função de vários fatores, inclusive a temporada, a Festa do Divino chegou a mudar de data durante um tempo. De maio, passou a acontecer em setembro.  Uma coisa assim desvirtua, quebra, altera tradições…

 

CARAVANA: UMA AÇÃO DO DEFESO

O forró do Chama Maré em São Paulo - Foto: Ricardo Gaspar
O forró do Chama Maré em São Paulo – Foto: Ricardo Gaspar

“Sem dúvida, a Caravana é uma ação do Defeso Cultural. Queremos ter outras ações. Mas essa é a primeira ideia, a de reunir pessoas para que a gente se fortaleça. No grupo não existe separação. Há o pessoal do Rap do Campinho integrado ao grupo Os Caiçaras, do Leônidas, tocando a Ciranda tradicional, para fazer existir essa conversa do tradicional com o contemporâneo. Ou seja, é a gente fazendo uma troca, entende? Conseguir entender o valor dos cirandeiros enquanto manifestação, e que valor tem esses meninos da nova geração querendo avançar, buscando fazer uma coisa profissional a partir de suas raízes, esse é um desafio da Caravana. Grupos como o Chama Maré, o Realidade Negra, a Ciranda Elétrica  têm condição de seguir viagem, profissionalizarem-se trabalhando fora daqui também. Por isso é que a gente não incluiu nenhum grupo tradicional na Caravana. O seu Ditinho e seus companheiros, que vêm da antiga Roda de Ciranda… a gente até levou esse grupo para o Rio de Janeiro, mas como convidado. Enquanto defeso cultural, a ideia é que eles fiquem aqui, apresentando-se para os turistas, que vão ver no local de origem a tradição acontecendo.  E vamos mostrar lá fora o produto, representando o tradicional da cultura caiçara. Se o turista é informado, se souber o que ele vai encontrar de autêntico na cidade, ele chega com respeito, sabendo o que veio fazer ao escolher esse lugar para visitar. Chega conhecendo. Turismo cultural exige que se prepare o espaço para receber o de fora. É você fortalecer a questão cultural e então divulgar, dizer “venha”. Porque quando se é convidado para um lugar, a gente sempre vai sabendo o que está indo fazer lá. Porém, quando se diz “venha” sem critério, corre-se o risco de se receber turista chegando ali do asfalto querendo saber onde vende torresmo… Coisa que não tem nada a ver com a gente aqui…

Cirandeiros Os Caiçaras - Foto: Ricardo Gaspar
Cirandeiros Os Caiçaras – Foto: Ricardo Gaspar

 

A Caravana estimula a criação, o avanço. Por isso incluímos na programação Os Caiçaras, grupo do Leônidas. Eles fazem certinho o tradicional, cantam igualzinho. É um grupo que já tem realmente uma cara de produto e é esse o objetivo deles. Então, além de preservar, fortalecer a tradição aqui, a Caravana impulsiona a criação, abre espaço para o profissional daqui trabalhar seu produto lá fora, permitindo inclusive uma ponte com os artistas que vêm pra cá. A gente, aliás, quer uma ponte. Quer tocar fora daqui. Precisamos disso, queremos mostrar o que uma cidade cultural produz. E cadê esse produto hoje? Só serve pra abrir show dos outros? Só serve pra trabalhar nos porões?...”

 

CACHÊ COM QUALIDADE AGREGADA 

Participar da Caravana não significa que o artista vai lá, faz um show e ganha. Claro, todo mundo tem um cachê. Não é um cachê astronômico, mas o mais importante é o que está agregado a esse cachê. Tem, por exemplo, a direção musical do Carlinhos Antunes, um profissional respeitado aqui e fora do Brasil. Tem a Consuelo de Paula, que veio na preparação e deu uma oficina de canto para toda a equipe.  Tem o Bruno Tavares, que veio pra falar com propriedade sobre política cultural. Esteve na Caravana do Rio e agora em São Paulo o Antonio Carlos Diegues, antropólogo, o papa da cultura caiçara. E o Mauro Munhoz, a pessoa que inaugurou, com a Flip, essa era dos  grandes eventos em Paraty.

BNegão e o grupo Realidade Negra em São Paulo
BNegão e o grupo Realidade Negra em São Paulo

Outro nome fundamental é o BNegão, que logo pós a Caravana no Rio, veio pra Paraty. Falou no palco que tinha tocado com um grupo daqui. E no dia seguinte foi visitar o pessoal no Quilombo. É disso que estamos falando, a Caravana trata de coisas com essa importância… Puxa, um artista internacional, que depois é chamado para a Caravana em São Paulo e o cara vai… Todos esses encontros, essas trocas, o importante é esse processo, esse novo jeito de lidar com o bem cultural, e queremos que esse aspecto da Caravana seja entendido como um valor.  Ela traz a possibilidade real de se abrir a discussão, porque é melhor que a gente discuta política pública entre nós do que ficar falando o que o político tem ou não tem que fazer… Político não sabe de política pública nem de cultura. Mas se a gente discute com mais e mais pessoas e começa a fazer propostas, os políticos irão nessa direção.

Temos que, ao menos, discutir. Espero que esse seja um caminho, que a ideia dê certo. Não estamos aqui dizendo que essa é a solução. Estamos dizendo que alguma coisa está sendo feita. Pode dar tudo errado, só que a gente está tentando. Prefiro que a gente erre fazendo,  do que ficar sentado e reclamando… Eu sempre quis dizer aos empresários que a maior forma de divulgar Paraty é através da cultura. Nós, os artistas, somos outdoors que andam… Recentemente fiz inúmeros shows pelo sul de Minas e em toda cidade eu abria dizendo “Boa noite. Eu venho de Paraty. Falo da minha terra…” Quer dizer, eu sou o maior outdoor andando… E nem cobro (risos). Na verdade, eu sempre defendi essa postura, quem me conhece sabe.”

 

CIRANDA-BAILE

Ciranda de Paraty
Ciranda de Paraty

“Quando se diz Ciranda, trata-se na verdade de uma das danças de salão que obedece a uma série de segmentos. O conjunto de todas essas danças é o baile, o acontecimento. Na origem, era chamada de Chiba, dançava-se a Ciranda dentro do Chiba. Havia também a Canoa, a Tontinha, o Chiba-Cateretê, que fazia a abertura da série… Diversas as danças, cada uma com seu nome e sua coreografia. Muita coisa foi ficando para trás, eu nem sei tanto sobre tudo isso, tem um  pessoal que sabe muito mais do que eu… A dança do Limão, da Arara, a Cana Verde, uma dança com bastões… Esses segmentos são todos muito parecidos, de Paraty até Paranaguá as células são as mesmas. As músicas são na forma solo-coro, tiradas pelo mestre em quadras tradicionais e respondidas pelas vozes dos dançadores. Do ponto de vista musical, a Ciranda é a manifestação mais forte de Paraty.”

 

DEFESO SEM FRONTEIRAS
“A fala do Gilberto Gil na Flip espalhou o conceito de Defeso Cultural. Uma pessoa me ligou de Salvador, dizendo que o Gil citou o defeso numa palestra dele na cidade. Também fui chamado para tocar em Rio das Ostras, onde havia um encontro com palestras para o qual fui convidado, junto com o Bruno Tavares. E uma pessoa de lá, envolvida com cultura, falou sobre o defeso melhor do que eu. O debate foi intenso, porque o conceito tem tudo a ver com a região, que vem perdendo a identidade por conta dos royalties de petróleo.
HORA DO BALANÇO

Caravana Paraty no Centro Cultural São Paulo
Caravana Paraty no Centro Cultural São Paulo

Pós Caravana, logo será hora de sentar para fazer uma avaliação. Porque a região de Paraty está vivendo um momento muito importante. Um momento de desconstrução daquilo que foi muito construído – a criação do turismo. Esses senhores da Ciranda, que construíram uma identidade, fizeram isso em um cenário de uma Paraty quase ilha, distante de tudo, isolada, chegava-se aqui só de barco. E Paraty agora é o centro do mundo. Não existe hoje a possibilidade de nascer aqui uma pessoa que faça o que o seu Ditinho fez…É isso que merece ser entendido. Esses feitos vão para o mundo da memória. E pode ir bem feito ou mal feito… Cabe a nós cuidar disso. Por mais que se queira virar cirandeiro, vivemos hoje outras coisas que não nos permitiria isso. Não dá mais para se crescer com a sabedoria ingênua, vamos chamar assim, de um mestre cirandeiro… Os bailes na roça tinham uma função social enorme, era quando as comunidades se encontravam, onde começavam os namoros, tinham função até para a reprodução humana… Era um ritual e, por muitos anos, não havia nenhum evento na cidade em que não se tocasse a Ciranda. Era a música da cidade. Hoje não tem espaço para o ritual, é exclusivamente entretenimento. Essa reflexão sobre a passagem do plano ritualístico para o plano do entretenimento também é ponto de discussão do Defeso Cultural. Faz parte do balanço.”

 

OBSERVAÇÕES DE CARLINHOS ANTUNES

Carlinhos Antunes - Diretor musical da Caravana Paraty
Carlinhos Antunes – Diretor musical da Caravana Paraty

Sou de fora, mas tenho uma relação direta com a cidade. Vi muito a Ciranda acompanhando todos os eventos de Paraty. Era um elemento presente nas festas religiosas. No Divino, por exemplo, o grupo acompanhava, entregava o Santo no altar e voltava à praça para fazer a Ciranda com aquela mesma alma, com a mesma devoção… Isso é identidade cultural. Acho que tem uma questão em jogo no Defeso que é a oralidade. No Brasil costuma prevalecer a lógica acadêmica, racional, cartesiana, embora seja importante nossa herança de oralidade, vinda dos negros, dos árabes e dos mouros. Uma oralidade que é subutilizada como forma de educação no País. Existe no Ministério da Cultura a Ação Griô, que valoriza essa tradição como patrimônio imaterial e cultural a ser preservado. Griô vem do francês, diz respeito ao contador de histórias, o transmissor da oralidade na comunidade negra. Penso que ter isso como bandeira pode contribuir nas reflexões do Defeso. Assim como preservar sabedorias sobre plantação, medicina popular, culinária… O Defeso Cultural transcende a música.”

 

EU, BRASILEIRO 

“Claudia: Eu Brasileiro é seu melhor CD, não é?

Perequê: Você acha?

Claudia: Eu adoro!
Perequê: Ah, que bom.

Claudia: É o que você mais gosta?

Perequê:  Acho que não fiz ainda um CD que eu realmente curta… Estúdio é complicado, você não se satisfaz no estúdio, entende? A gente ouve e diz “podia ter posto isso, aquilo e  tal”. Mas na minha história musical, o Eu Brasileiro é um disco de uma força enorme, porque foi feito sem condição nenhuma. Foi em 2006, numa mesinha, junto com o Cláudio Raed e duas caixinhas.  Até então eu só tinha gravado o vinil do Encanto Caiçara. Foi minha primeira experiência de registro, né?  Mas teve muito improviso e bonés resultados… Músicos passando por Paraty… Na Praça eu vi que tinha um cara tocando um baixo de arco, outro tocando pandeiro e outro, flauta. Parei, conversei com eles. “Pô, tô gravando um disco. Não quer ir lá em casa?” Pegamos um táxi, enfiamos aquele instrumento gigantesco dentro e eles vieram para cá. A flauta não ficou legal. O cara do pandeiro fez umas coisas. E o baixão ficou ótimo, é aquele baixo do Eu Brasileiro. E tem a história daquele vozeirão que aparece na música … Eu tinha acabado de gravar, o  esqueleto estava todo ali e o Guru apareceu aqui em casa. Mostrei a gravação para ele e sem pensar muito eu falei, “Pô, Guru, faz um vocal aí”. E ficou aquilo, maravilhoso! Como  a flauta do PC Castilho. Pedi a ele para vir, não tinha dinheiro nem para a passagem dele… Ele veio e me perguntou “O que eu faço, Perequê?”. E eu: “Quero que você fique à vontade e toque”. Foi assim… Então essa é a vantagem. Não ficou um disco de qualidade para tocar em rádio, aliás, nem sem pensou nisso. Eu também, sinceramente, nunca consegui passar por esse caminho do certinho, do fazer um disco radiofônico, um negócio mais careta… Não consigo.”

 

VELHAS E NOVAS MÚSICAS

“Atualmente estou começando a gravar um CD novo. Já fiz algumas coisas, gravei a primeira base com a Consuelo (Consuelo de Paula, mineira, compositora e intérprete de canções populares brasileiras, em sua maioria do folclore), que passou aqui por Paraty. Ela pôs a voz e eu tive a ideia de abrir o disco com os tambores de Jongo, falando um poema. Volto da Caravana em São Paulo para me dedicar a esse CD e terminar rápido, porque não gosto muito de gravar. O processo de gravação não é uma coisa que me deixe tão feliz quanto tocar… Acho muito chato ficar no estúdio e repete e faz coisa e vai montando… Gosto mesmo é de fazer música. Se eu pudesse teria até um intérprete. Sou mesmo é compositor. Pessoalmente não digo a ninguém que sou cantor. Nem poeta. Não tenho livro lançado… Mas acho que sou poético, faço umas letras e tal… Eu estou sempre compondo. O meu processo é meio assim, vem uma ideia, chego à noite, pego o violão, termino. Às vezes as ideias não se encaixam, aquilo fica ali amadurecendo e o que era novo vai ficando velho… Mas tem música que sai assim, sem pensar muito… A Vanda (Vanda Mota, sua mulher) sempre conta como nasceu a canção Manacá da Serra.  A gente estava em São Paulo, fui lavar uma louça e comecei a dizer essa história, que falava dos manacás que tínhamos visto na estrada. Acabei a louça e a letra estava pronta. Peguei o violão e a música veio todinha resolvida também, era como se não fosse minha. Simplesmente toquei. E tem também Encanto Caiçara, música que eu fiz em 1983. Comecei pelo refrão… E mariscar maré rasa… Imagem bonita, o povo mariscando na Jabaquara, naquela maré rasa… Fiquei com isso na cabeça. Depois veio a imagem da Ilha do Araújo, nessa época eu vivia lá, gente sentada na praia… remendando rede, reunindo malhas, pra pegar o peixe, pra fartar a casa… Para amarrar tudo eu me situei… Venho de campos e matas, terra verde, fértil e farta… Eu precisava dizer minha identidade a quem me ouvisse.

 

O QUE EU MUDARIA EM PARATY

“Olha, a questão da cultura eu gostaria que mudasse. Não se pode achar que cultura é uma coisa a ser preservada. A gente precisa é dar manutenção. Cultura é uma coisa dinâmica. Estamos falando de uma cultura que ainda está viva, está em exercício. Então o que eu gostaria é que esse exercício fosse mais perene, mais bem cuidado. Gostaria que mudasse um pouco essa visão que se tem da cultura a serviço do turista. Mas eu acho que na verdade a gente só se fortalece enquanto cidade cultural, quando está com sua identidade muito bem resolvida. Que a gente faça cultura independente chegar ou não. Por outro lado, é claro, o turista cultural é super bem-vindo. Estamos à espera dele, do turista aprendiz de Mário de Andrade. Quem não viaja querendo ver os shows que acontecem em outra cidade, não é?”

 

O QUE NÃO PODE MUDAR EM PARATY
“Bom, vou ser sincero: eu não quero que mudem as cachoeiras… Realmente é assustador você ir a uma cachoeira e ver uma fila gigantesca, como se fosse a de um chuveiro no deserto. Isso tem que ser repensado…”

PARA NÃO CONFUNDIR…

“Deixa eu dizer uma frase importante, para deixar bem claro: nenhum movimento, nem Defeso Cultural, nem Caravana, nem Silo Cultural, nem o que eu penso é contra a questão do turista em Paraty. Falamos é sobre a forma de exploração do turismo, onde a população entra como ferramenta. Me refiro ao que considero uma visão empresarial equivocada.”

 

A MELHOR PARATY PARA O TURISTA

“Ah… Eu recomendo a Paraty que tem alma. A Paraty das pessoas, da sua população. Recentemente fui assistir ao show do Madredeus aqui na cidade e na terceira música resolvi ir embora.  Porque do meu lado tinha uma turma gigantesca com isopor de cerveja e gritando o tempo todo… Eu não entendo isso… Aquelas pessoas, no meu entender, não vieram para Paraty. Poderiam estar em qualquer lugar do mundo, zoando daquele jeito, não vendo nada à sua volta. Mas considero que essa falha é nossa. Nós não estamos informando ao pessoal de fora o que ele vai encontrar aqui. Nós só estamos dizendo “venha, venha, venha…” A  gente está errando legal. Em 2007, me lembro, foi encomendado um diagnóstico de Paraty a uma consultoria da Espanha, a Chias Marketing (contratada para traçar o Plano de Desenvolvimento do Turismo Cultural da cidade). O resultado de todo um estudo foi exposto na Casa da Cultura, para mais de duzentas pessoas: Paraty não precisava fazer propaganda para mais nenhum turista. Precisava sim era cuidar bem dos turistas que já tinha.”

 

ULTIMO RECADO

A Cultura é o maior exercício que se pode ter, em um plano menos terreno e pragmático e mais de alma… Se a gente fizer isso, teremos a chance de manter a nossa cara, o nosso jeito. E poderemos deixar algo de concreto para os nossos filhos. Se a gente não fizer isso, teremos uma cidade tumultuada de beira de estrada, sem nenhuma identidade cultural. Temos que preservar a convivência, o exercício da cultura ampla, do  religioso ao profano… Respeitar que estamos todos no mesmo bojo, tentando ser feliz.”

 

 

MAIS CARAVANA EM FEVEREIRO
Dança na Galeria Olido, em São Paulo

 

De Porto e Alma - Companhia DançanteAto
De Porto e Alma – Companhia DançanteAto

Nos dias 13, 14, 15 e 16 de fevereiro (quinta a domingo), a Caravana Paraty vai apresentar em São Paulo, na Galeria Olido, uma curta temporada do espetáculo de dança De Porto e Alma, da Cia. DançanteAto.

Criada há 15 anos pela coreógrafa Vanda Mota, a companhia busca se manter na linguagem dos elementos culturais da região de Paraty, com vocabulário técnico baseado no balé e na dança contemporânea.
De Porto e Alma mostra a cidade como um lugar de chegadas e partidas – um lugar que existe em cada um e no cotidiano daqueles que habitam as cidades turísticas.

Horário: quinta, sexta e sábado, às 20 horas; domingo às 19 horas.

Local: Galeria Olido, Sala Paissandu (137 lugares)

Avenida São João, 473, 2º andar, Centro
São Paulo, (11) 3331 8399

 

Saiba mais sobre o Defeso Cultural:

https://pt-br.facebook.com/defesocultural

http://vimeo.com/defesocultural

http://www.paraty.com.br/caravana_paraty.asp

 

Para comprar CDs do Luis Perequê: http://www.paratystore.com.br/Conteudo/Produtos.aspx?idTipo=0402

 

 

Histórias de vida e de lugares sempre me interessaram. Como jornalista, sou movida a ideias e boas pautas. Desde 2004 escolhi viver em Paraty, onde sou mais leve e contemplativa. Trabalho em casa, no meu escritório com alma e vista para o verde, e não me desconecto. Assumo completamente que o ambiente digital é uma das minhas praias preferidas, ainda mais agora, integrada à equipe do www.paraty.com.br . Escrever sobre Paraty, dirigindo-me a quem mora por aqui e a quem chega para curtir a cidade, é uma das minhas grandes fontes de prazer e inspiração. Outras são a fotografia e a cor azul, que me levaram a criar o blog http://adoroazuis.blogspot.com.br, para expressar o que encontro de azul no mundo. Claudia Ferraz

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