Entrevista com Diuner Melo na Praça da Matriz
Entrevista com Diuner Mello na Praça da Matriz – Foto: Ricardo Gaspar

Por Claudia Ferraz
Colaborou Mary Lacerda
Agradecimentos à Livraria de Paraty, onde parte da entrevista foi realizada.

Os cenários dessa entrevista, realizada em um final de tarde desse nosso exagerado verão 2014, não poderiam ter sido mais adequados e inspiradores. A conversa começou em um dos bancos da Praça da Matriz. Depois foi acontecendo sem pressa durante uma caminhada até a Rua Fresca, com direito a um bom tempo diante da Capelinha para, em seguida, quebrar o silêncio das ruas de pedra até a Casa da Cultura e terminar à mesa de uma livraria-bar ali na esquina do histórico casarão onde viveu Samuel Costa – o primeiro prefeito e personalidade célebre da história da cidade.
Onde? Em Paraty. Com quem? Diuner Mello, morador ilustre, um assumido historiador amador, autor de seis livros que guardam registros valiosos das festas, tradições e traços peculiares dessa cidade considerada por ele próprio como “lugar de estar e de beleza rara”.
Faça esse passeio histórico com a gente, acompanhe nossa (longa) conversa e emocione-se com os relatos vivos de quem se diz “um eterno apaixonado” por sua terra natal.

 

PARATY.COM.BR Para começar, Diuner Mello por Diuner Mello…

Diuner Melo
Diuner Mello – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLO – Eu nasci em Paraty, estudei aqui, depois estudei um tempo no Rio de Janeiro, fui seminarista. Lá, ninguém conhecia, sequer sabia onde era Paraty. Jamais tinham ouvido falar, nem achavam que Paraty fosse nome de cidade. Então, com 20 anos, quando voltei, resolvi ver, enxergar mesmo que cidade era essa, que não constava no mapa e que ninguém conhecia. Foi quando comecei a me dedicar a um estudo de História, primeiro conversando com as pessoas mais velhas: Manoel Torres, Nestor Miranda, assimilando o que eles tinham pra contar. Depois comecei a consulta de livros, fui amealhando uma série de informações sobre a cidade. Mas minha mãe dizia que eu não iria sobreviver daquilo, pesquisar a história de Paraty não me daria dinheiro. Então fui trabalhar. Fui funcionário público. Trabalhei na Prefeitura, na Secretaria de Turismo, fui chefe de gabinete. Trabalhei no hospital durante quinze anos como administrador. Mas meu tempo vago era todinho para estudar a história de Paraty. E com esse estudo, com a documentação inclusive de viagens que me ajudaram a pesquisar, saber mais, acabei virando um expert em história. Eu sou isso hoje. Uma pessoa que conhece a fundo a história de Paraty.

Assista o próprio Diuner se apresentando:

PARATY.COM.BR A história oral, o ouvir o outro… Isso foi importante no seu processo de historiador amador, na satisfação de sua curiosidade?

DIUNER MELLO – Muito. Existe um fato engraçado: Samuel Costa dizia e também o Zuzu me disse que a antiga Cadeia ficava aqui na Praça, em frente ao cinema. E diziam ainda que existiu um forte, a Fortaleza da Patitiba, onde está hoje a Biblioteca (a antiga Cadeia). Escrevi isso no meu primeiro livro. Depois, consultando documentos, descobri que realmente a Cadeia era aqui na Praça, mas o Forte foi demolido, para só mais tarde ter sido construída a Cadeia. Mas veja, a informação oral se confirma.

PARATY.COM.BR Então o seu método de pesquisa foi sempre a boa conversa…

DIUNER MELLO A boa conversa que você documentalmente pode confirmar ou não. No caso da Cadeia velha se confirmou quando foi encontrado o alicerce. E no caso do Forte com o levantamento da documentação que mandava demolir a construção para que fosse construída ali a Cadeia, chamada na época de Casa de Detenção.

PARATY.COM.BR –Estamos aqui no centro do que eu chamo de “broche” de Paraty, na Praça da Matriz, em meio a esse casario bonito, bem conservado. Há 100 anos esse entorno era dessa forma ou muita coisa mudou por aqui?  

DIUNER MELLOIsso era mais ou menos como é hoje, sim. Esse quadrado da Praça foi definido pela Câmara por volta de 1870, quando foram plantadas as primeiras palmeiras (ele aponta uma delas, definindo-a como a última que sobrou das antigas palmeiras centenárias da Praça da Matriz). O surgimento da Praça foi simplesmente uma demarcação, aqui era um campo, um gramado, sem nenhum atrativo. Somente em 1922 é que Samuel Costa, então prefeito, resolve transformar a Praça da Matriz em Jardim Público. Então, ele “copia” o Passeio Público do Rio de Janeiro, do Glaziou ( Auguste François Marie Glaziou, 1828-1906, paisagista francês), inclusive com a plantação de algumas das mesmas árvores que existiam no projeto carioca. Criado o jardim, o espaço da Praça passou a centralizar a cidade, ganhando de início a construção da Matriz junto ao rio, depois da antiga Câmara e da Cadeia. Essa Praça onde estamos agora é o núcleo mais antigo a partir do qual Paraty se expandiu, embora, no passado, a área não fosse toda essa que é hoje. No lugar exato desse banco onde estamos sentados, por exemplo, havia um quarteirão de casas, com frente para a Praça e fundos para a rua Dona Geralda. E eu morava exatamente aqui, onde nós estamos sentados!  Mas essas casas um dia foram demolidas, por decisão da Câmara. Expandir para o lado do rio era impossível, a saída foi expandir no sentido da Igreja de Santa Rita. Naquele tempo a Rua do Fogo vinha até aqui, era a primeira rua que ligava a antiga Matriz à Santa Rita. Depois foi criada a Rua Dona Geralda. Em 1726, quando Paraty foi urbanizada, foi feito outro traçado, e a Rua do Fogo ficou reduzida àquele quarteirãozinho que ela é hoje.

PARATY.COM.BR – Dona Geralda, Samuel Costa…Quem foram essas figuras ilustres que emprestaram seu nome às ruas mais importantes de Paraty?

Livraria de Paraty, casarão onde morou Samuel Costa
Livraria de Paraty, casarão onde morou Samuel Costa – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLO – Samuel Costa foi mesmo um paratiense ilustre. Formou-se advogado e se dedicou à política. Foi deputado provincial, presidente da Câmara e o primeiro prefeito de Paraty, por volta de 1916 até 1922. Eu o considero uma das pessoas mais importantes da história da cidade. Numa época em que Paraty estava em total decadência, ele foi um visionário. Conseguiu construir o Jardim Público, uma ponte de madeira sobre o rio Perequê-Açu e ainda fez a iluminação elétrica da cidade, que chegava até aqui vindo lá de cima do Penha (bairro na estrada Paraty-Cunha), de onde hoje está o local ainda conhecido por Usina. Ali, em 1922, funcionava a Central de Luz que distribuía a iluminação para Paraty. Esse lugar onde existiu a usina foi uma fábrica de tecidos. Na época, Samuel Costa aproveitou o local para fazer os geradores de energia elétrica. E de lá vinha a posteação até a cidade. Quando criança, eu cheguei a conhecer essa iluminação, os postes eram de ferro, colocados  no meio da rua.

 

PARATY.COM.BR – Dona Geralda…

 DIUNER MELLO – Ah, ela foi outra figura ímpar. Geralda Maria da Silva. Era filha natural de um armador de navio, um homem rico e poderoso. Filha única. Quando o pai morreu, herdou uma fortuna incalculável e no seu testamento deixou duas fazendas e dezessete casas na cidade para a Santa Casa e para os escravos dela – escravos que ela libertou. Os relatos da época, inclusive do Imperador Pedro II, contam que dona Geralda era uma pessoa caridosa, atendia a todos os pobres. E chegou a colaborar com vinte e cinco mil contos de réis para terminar as obras da Matriz, valor hoje equivalente a cerca de vinte e cinco milhões de reais! Uma quantia e tanto, não é? Como ela não teve filhos, fez essa doação generosa.

PARATY.COM.BR – E onde morava Dona Geralda? Aqui no Centro Histórico?

DIUNER MELLO _ Sim, aqui na Praça, bem diante da Matriz, no número 15. Ela era tão beata que resolveu morar em frente à igreja… Olhe, era aqui, exatamente nesse sobrado de portas azuis e amarelas. Interessante porque é um sobrado simples, sem ornamentos, sem sacada, em termos de estilo muito mais do século XVIII do que do XIX.

PARATY.COM.BR – Você nasceu aqui no Centro Histórico?

DIUNER MELLO Sim, dei muita sorte. Nasci na esquina da Rua da Cadeia com a Rua do Comércio. Situando melhor, indo no sentido oeste, tem a quadra de basquete, na sequência um sobrado e depois há uma casa de esquina. Foi naquela casa, Solar dos Mello, uma casa genial, construção do século dezoito, com frente para três ruas.

PARATY.COM.BR – Este casario de hoje sofreu muitas intervenções na arquitetura?

DIUNER MELLO Sim. A Paraty de hoje não é a mesma de cem anos atrás. Não é a Paraty do século dezoito, desse tempo muito pouco restou. Existiam ruas que não existem mais. Remanejamento, ou seja, aquela história da cidade invisível… Nós temos uma cidade invisível embaixo dessa. Tal como em Roma, se você escavar vai encontrar outros alicerces, outras estruturas. A gente tem muito mais registros do século dezenove. Mas veja, esse é um exemplo do dezoito (ele afirma, apontando uma das fachadas na Praça da Matriz). Temos outros bons exemplos, como a Casa da Cultura, com as varandas de madeira, a Casa Paroquial… Mas quando se fica rico, a tendência é querer modernizar, não é? Então, no dezenove, quando a cidade volta a ficar rica, os proprietários dos casarões resolvem adotar a moda da Corte. É quando chegam os avarandados todos de ferro trabalhado, as novidades, novas cores, os abacaxis… E vêm também os desenhos maçônicos, que surgiram preferencialmente na passagem do século dezoito para o dezenove. A maçonaria em Paraty é da fase rica, quando a cidade resolve se parecer com o Rio de Janeiro.

PARATY.COM.BR – Diuner, olhe…Esse é um autêntico desenho maçônico? (pergunta  feita diante de sobrados nas imediações  da rua Dona Geralda com a rua da Capela, quando nos encaminhávamos para a Capelinha)

Símbolos maçônicos nas fachadas de Paraty
Símbolos maçônicos nas fachadas de Paraty. O sobrado com portas azuis e amarelas foi de Dona Geralda. Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLO – Sim, este é autêntico. Aquele também (aponta). Mas são apenas seis ou sete na cidade. E apenas em sobrados. Em casas baixas não há símbolos maçônicos. Por esses desenhos um maçom consegue dizer o grau do morador ou de quem construiu a casa. Apesar de não ser maçom, sei ler alguns desses símbolos. Os dessa fachada (outra vez ele aponta) indicam ser de um cavaleiro templário, ordem das mais importantes… A lua em crescente é símbolo dos árabes, assim como a espada curva, a cimitarra. Veja essa faixa aqui (apontando outra vez), o fundo é cor-de-rosa, infelizmente já desbotado, mas é indicativo da maçonaria simbólica, a filosófica, aquela voltada ao estudo. Há um sobrado na rua da Praia que conserva a cor rosa original, na verdade é um vermelho, quase bordô…

 

 Diuner explica os símbolos maçônicos das fachadas do Centro Histórico:

PARATY.COM.BR – Diuner, ainda falando sobre alterações no Centro Histórico, no filme Gabriela, em grande parte filmado aqui há trinta anos, não se via nessa fachada (quase na esquina da rua da Cadeia com rua Dona Geralda) esse Passo da Paixão (comuns nas cidades coloniais,  são pequenas capelas que se abrem aos fiéis na Semana Santa, como símbolo das estações da Via Sacra). Se não existia é sinal de que é recente, como é isso?

Passo da Paixão
Passo da Paixão na Rua Dona Geralda – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLO – Os Passos foram demolidos em 1929, estavam em ruínas, caindo. Por sorte, dois não foram demolidos – o da Igreja de Santa Rita e um da Rua do Comércio, sendo que as portas originais foram guardadas na Matriz. Pela tradição oral, numa pesquisa feita pelo Júlio César, descobriu-se onde ficava cada um, isso  ajudou muito quando se começou a mexer nas paredes. Foram encontrados todos os arcos e, conferindo os encaixes, as portas foram instaladas. O interessante é que muitas delas apresentavam pinturas internas, de cenas da Paixão inclusive. Agora, este Passo aqui, na Matriz, foi refeito há uns dez anos. A porta é original, já o interior, não. Existiu até 1929, foi derrubado, mas voltou para o mesmo lugar. Um  detalhe muito especial, marcante nos Passos da Paixão, foi descoberto nessa fase de recuperação. Eles têm o formato de uma lua minguante, símbolo da ignorância e da morte. E também símbolo da Paixão de Cristo. Reparem, a calçada é reta, mas o piso do Passo não é…

PARATY.COM.BR – Isso seria quase uma comprovação de aqui existiu mesmo um Passo?

DIUNER MELLO Exato. Na pesquisa para a recuperação não precisaria nem ter cavado a parede, de tão evidente que é esse formato de lua minguante marcando um par. Mas só os antigos, que não foram mexidos, mantêm essa característica. Os outros perderam.

PARATY.COM.BR – Olha que lindo, o sino tocando e a gente aqui, falando da recuperação dos Passos da Paixão de Cristo.Essa cidade é mesmo mágica!

DIUNER MELLO – Nós estamos sendo brindados nessa entrevista pelo sino da Matriz! É hora do Angelus das seis da tarde (Angelus refere-se à tradição católica de três orações ao dia, pela manhã, ao meio-dia e às seis horas da tarde, acompanhadas por badaladas do sino da igreja).

Diuner explica detalhes dos Passos da Paixão:

 

PARATY.COM.BR – Vamos investigar mais esse passado histórico e arquitetônico aqui da Praça da Matriz, Diuner…Este prédio do cinema, que há tanto tempo está fechado e que envolve uma contenda…Foi ele o único cinema que existiu na cidade?

Antigo Cinema de Paraty. Hoje fechado para reforma
Antigo Cinema de Paraty. Hoje, fechado para reforma – Foto: Ricardo Gaspar

 DIUNER MELLO – Não. Paraty teve alguns cinemas mudos. Um deles ali perto da Igreja de Santa Rita, onde é hoje o Teatro Espaço. Outro onde é a pousada Porto Imperial, onde foi fundada em 1804 a Casa de Ópera. É engraçado… A tradição oral conta que nos cinemas não havia cadeiras, as pessoas levavam cadeira de casa, em geral eram os empregados que levavam, e amarravam um lenço na cadeira, com o nome do dono, para marcar lugar. Foi depois desse tempo que o cinema se transferiu pra cá, já era o cinema falado. Era o Cine São Jorge, que funcionou durante muitos anos, até que a televisão, como aconteceu no Brasil inteiro, começou a roubar público. Depois houve uma tentativa de reerguer o cinema, e deram o nome de Leila Diniz. Mas havia um problema de acústica sério. Você podia entrar para assistir ao filme, mas para ouvir o diálogo tinha que ficar na Praça (risos). Atualmente o prédio está fechado, mas parece que, apesar da polêmica, há um projeto interessante para ele,  até já aprovado pelo IPHAN, que seria o de um cine-teatro, ou seja, um espaço multiuso, bem adequado à Paraty de hoje.

PARATY.COM.BR – E aqui na esquina, o que era esta casa onde é hoje o restaurante Punto Divino?

Restaurante Punto Divino
Restaurante Punto Divino – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLO – Olha, até trinta anos atrás era um terreno baldio aqui. A casa atual é bem recente, é da metade pelo menos do século vinte. O interessante é que como os construtores, pedreiros, carpinteiros que moravam aqui aprenderam a fazer a construção daquela forma antiga, dos séculos dezoito, dezenove, eles continuaram fazendo como se fosse, não modernizaram, não faziam laje por exemplo. Alguma coisa entrou de moderno como a cimalha, que já é de massa, e não mais de madeira, mas são exemplos raros. Então acaba ficando difícil definir o que é do dezoito, do dezenove, até mesmo do que é de meados do século vinte.

 

PARATY.COM.BR Aqui na Praça há muitos outros exemplos desse revival de estilos?

Sobrados da Sorveteria Miracolo e da Casa Coupê
Sobrados da Sorveteria Miracolo e da Casa Coupê – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLO – Sim, por exemplo, o sobrado do Mirácolo (restaurante e sorveteria), uma construção de influência Belle Époque, era originalmente uma casa baixa, térrea. Depois é que subiu, ganhou dois andares, quando isso ainda era permitido pelo IPHAN. Ali foi sede do primeiro banco que surgiu em Paraty, o Banco Predial do Estado do Rio de Janeiro. Sua construção atual é cópia de um prédio antigo, data de 1960-1970, não antes disso. O sobrado de esquina do bar Coupê também é recente. Há inclusive um processo do IPHAN nessa história, por alteração do projeto original, que não previa laje, nem aquele terceiro andar , a mansarda, nem aquela platibanda (faixa que emoldura a parte superior de um edifício), elementos totalmente fora do padrão arquitetônico. A ideia do tombamento de Paraty é exatamente essa: que as construções mais modernas se concentrem fora do Centro Histórico, para causar  um choque de estética. O primeiro tombamento da cidade considerou Paraty patrimônio estadual, foi em 1945, época do Estado Novo, com Amaral Peixoto, que era filho de paratienses. Por isso que ele tomba Paraty e determina que as construções mais modernas sejam edificadas a partir da Praça do Chafariz em direção oposta ao mar, justamente para esse novo núcleo chocar com a cidade velha. O padrão na época previa construções sobre pilotis, com rampas, uma arquitetura urbana bem moderna. Infelizmente não aconteceu… A avenida Roberto Silveira acabou virando uma via feia, sem estilo, sem definição.

PARATY.COM.BR É verdade, a avenida Roberto Silveira, em toda sua extensão, parece não ter história, é desordenada…

DIUNER MELLO Pois é, se fosse mais moderna, bem moderna, avançada, iria se casar com o colonial do Centro Histórico, porque o contraste ordenado provocaria o choque desejado.

PARATY.COM.BR Será que os guias de turismo contam corretamente toda essa história? Esses guias têm uma formação? Você chegou a orientá-los alguma vez?

DIUNER MELLO – Olha tem uma série de guias formados. E bem formados. Cheguei a dar aula para um dos grupos de formação. Mas assessorei praticamente todos os estudantes, porque eles vinham me perguntar tudo. Há uns guias que vieram de fora, são guias regionais, que por conseguinte acabam inventando algumas idiotices, dizem um monte de bobagens. Fazer o quê? Isso sem falar das charretes…

PARATY.COM.BRVocê não aprova as charretes?

DIUNER MELLO Não. Considero as charretes um desserviço. Há um tempo escrevi um artigo no Jornal de Paraty chamado Febeapá, lembrando o livro do Stanislaw Ponte Preta, Festival de Besteira que Assola o País (de 1966). No meu artigo me referi ao Festival de Besteiras que Assola Paraty, entre elas essas invencionices que muitos turistas ouvem, passeando de charrete. Há guias que dizem que as pedras da rua vieram todas de navio, trazidas pelos portugueses, que aqui trocavam por ouro,  porque o ouro aqui não tinha valor nenhum… Imagine! Dizem também que o Cemitério da Santa Rita era para enterrar freiras, só que Paraty nunca teve convento de freiras… Mas não adianta falar com eles, já dei um guia na mão dos charreteiros, fiz um roteirinho dizendo o que era o quê…

PARATY.COM.BR – Falando em invencionices… E os piratas, as invasões? Isso tudo existiu mesmo por aqui?

DIUNER MELLO Não, não existiram piratas. Aliás, eu lamento (risos). Até porque se um navio pirata adentrasse a nossa baía, estaria preso no mar até hoje, não ia ter como sair. No mínimo pela quilha e pela falta de vento… Todos os relatos de pirata na região chegam até a baía da Ilha Grande. Como aqui era saída de ouro, a única preocupação do governo português foi com a proteção. Daí existirem sete fortificações em torno da cidade. Mas invasões, não se tem registro de nenhum, a não ser a de uma ameaça em 1711, quando antes de invadirem o Rio de Janeiro, os franceses bombardearam Angra dos Reis. A Câmara daqui se preocupou e fez um plano de evacuação pelo rio Perequê-Açu. Mas só há registro do plano, não se sabe se foi ou não executado.

PARATY.COM.BR – Estamos aqui na rua Fresca, de frente para o verde da região do  Mamanguá. Essa Mata Atlântica que a gente vê, ao menos aparentemente preservada,  foi área de agricultura, de plantação de cana alguma vez? É uma área virgem ou não?

Entrevista com Diuner Melo nas ruas de Paraty
Entrevista com Diuner Mello nas ruas de Paraty – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLONão. Área virgem é muito pouco. Nós temos os núcleos, que seriam as fazendas. Nos seus entornos já é uma mata terciária, justamente pela plantação de cana em grande quantidade. É o caso da fazenda da Boa Vista, da Bom Retiro, Itatinga, Pedra Branca… Só que com o abandono de grande parte dessas fazendas no final do século passado, a mata voltou a ocupar os espaços. Mas como falei, com uma vegetação terciária, inclusive com determinados tipos de plantas que só surgem quando o espaço é recuperado pela mata. No alto da serra, naquela parte que a gente chama de Coriscão, nunca houve plantio de nada. Então ali há uma mata fechada e original, primária, ainda com macacos, como o mono-carvoeiro, jaguatiricas etc. Aqui na região do Mamanguá, no Morro do Cairuçu, também é mata original, ainda existem onças…É interessante, a palavra Cairuçu se origina de Ocara-açu, ou seja, taba grande – a grande taba do Cunhambebe (famoso chefe indígena da nação Tupinambá), no Cairuçu das pedras. Então aquela região nunca teve grandes fazendas. Isso significa que a mata ali é primária, da melhor qualidade.

PARATY.COM.BR – Ainda na rota da curiosidade por saber a origem das tantas histórias em Paraty, quando surgiram os hotéis em Paraty?

DIUNER MELLO A gente tem hotéis aqui desde o século dezenove. Havia os que eram voltados para os viajantes, que vinham do Rio de Janeiro para cá fazer comércio,   vender tecidos, gêneros alimentícios etc. Era o hotel da dona Zezé, o hotel do Julinho…Minha bisavó teve o hotel O Fluminense. Mas o primeiro voltado para o turismo foi o Candeeiro, do Téo Rameck (paratiense de família tradicional), que na verdade não era hotel e sim motel.

PARATY.COM.BR – Voltando aos moradores ilustres, onde era o sobrado da artista plástica Djanira?

Restaurante Bartholomeu, sobrado onde morou a pintora modernista Djanira
Restaurante Bartholomeu, sobrado onde morou a pintora modernista Djanira – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLOÉ onde fica hoje o restaurante Bartholomeu, com frente para a rua Samuel Costa. Sobre essa curiosidade a respeito de moradores célebres, as cidades turísticas que têm uma veia histórica costumam ter registrados nas ruas, nas casas, os nomes de quem morou ali. Coisa que a gente sente falta em Paraty. Depois de muita investigação, por meio de registros de nascimento, de óbito, de informação oral, consegui, inclusive com confirmação em cartório, definir alguns nomes de pessoas importantes do passado e os respectivos locais onde nasceram ou viveram na cidade. Essas informações estarão em plaquinhas que vão ser afixadas, em breve, indicando os principais dados do morador ilustre. Na minha pesquisa, levantei os  mais antigos e os que emprestaram seus nomes a ruas, como Samuel Costa, Maria Jácome de Melo, Geralda Maria da Silva, Comendador José Luiz, Marechal Santos Dias. Incluí o nome do vigário português Hélio Pires, que chegou em 1909 e morreu em 1950. Ele batizou e casou muita gente na cidade. Era uma referência. Além de pessoas, alguns locais vão ganhar uma placa informativa na porta, a exemplo do asilo, cuja casa, até o século dezoito, início do dezenove, foi o primeiro hospital da cidade, antes da construção da Santa Casa.

PARATY.COM.BR –  Consta de um dos livros de Zezito Freire (José Carlos de Oliveira Freire, paratiense de 1922, provedor da Santa Casa e chefe de contabilidade da Prefeitura, dono do primeiro escritório contábil de Paraty) que o asilo foi doado ao hospital por Gibrail Núbile Tannus…

DIUNER MELLOHá muitos prédios públicos em Paraty, que acabaram em mãos de particulares. Eu não sei dizer se foram abandonados e ocupados posteriormente ou se o próprio Estado abriu mão… Para se ter uma ideia, até a década de 1960 o Forte Defensor Perpétuo tinha um dono, que também era proprietário das terras do entorno. O que, na verdade, era impossível, porque eram terras da União…

PARATY.COM.BR  – Então os conflitos de terra sempre existiram em Paraty?

DIUNER MELLOSempre. São muitas as histórias, uma delas diz respeito ao cemitério. Quando ele foi construído, em 1850, o limite do terreno da Santa Casa ia até aquela pracinha que existe ali. Então surgiu um impasse: como se chegaria ao cemitério? A Santa Casa acabou cedendo, recuando parte de sua área para dar lugar à atual rua onde está a Prefeitura, Alameda Princesa Isabel. Tudo bem, só que depois foi levantado ali, no meio da rua, em parte daquele terreno doado pela Santa Casa, um restaurante. Quem construiu está ali até hoje…Isso ainda é muito comum em Paraty.

PARATY.COM.BR – E como você vê a Paraty atual, com esse turismo desordenado?

Entrevista na frente da Capelinha
Entrevista na frente da Capelinha – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLOVejo com preocupação. Numa análise rápida, avalio que até 2004, o atrativo maior de Paraty era, por excelência, o turismo cultural. Claro que existiam o  turismo náutico, o de aventura etc. Mas o Centro Histórico era a grande atração. As programações governamentais se centravam em fatos culturais. Festival de Música Clássica, Festival de Música Sacra, depois veio a Flip, consolidando essa vocação de turismo cultural. Só que depois a política cultural adotada resolveu ser igual a de  qualquer outra cidade, Búzios, Cabo Frio… O importante era trazer gente, pouco importa a cultura… Então o Centro Histórico foi abandonado, largado. Não se fez obra nenhuma nem de conservação. Os proprietários de bares e restaurantes julgaram-se donos da rua, colocam mil mesas que impedem a passagem das procissões. O direito de ir e vir acabou. O som é de uma altura infernal. Você é obrigado a ouvir o som que o dono do bar quer colocar, e não o som da rua, o som do nada…Esse descaso pelo turismo cultural, para privilegiar o turismo como economia, criou uma dicotomia entre passado e presente. Além disso, acho que o fato mais preocupante ainda se chama royalty. As prefeituras deixaram de se preocupar com suas rendas e suas atribuições em função dos royalties. Recebem um dinheiro que entra todo mês, limpo, como se fosse aposentadoria sem trabalhar…É preciso que se faça uma reviravolta nessa questão, tornando o turismo cultural o principal atrativo de Paraty, valorizando não só o Centro Histórico, mas as tradições, a dança, o modo de viver, o jeito de ser, a alma do paratiense, entende?

PARATY.COM.BREstamos longe disso hoje?

DIUNER MELLO – Longe, muito longe mesmo….

PARATY.COM.BRO que, na sua opinião, tem que mudar em Paraty?

DIUNER MELLO – Olha, eu não sou xiita. O Centro Histórico sempre foi o playground da cidade. Você mora na Ilha das Cobras, na Patitiba, mas o seu lugar é a Praça da Matriz. Você vai à Praça aos sábados, nos dias de festa, é na Praça que acontece o bingo da Festa do Divino. Ou seja, ela centraliza e ritualiza a convivência. Isso, infelizmente, não está mais acontecendo. No momento em que a Praça da Matriz deixar de ser frequentada por paratienses, deixar de ter velho lendo jornal, de criança brincando, a cidade morreu… Não que os outros eixos tenham mudado. Tudo bem, Patitiba, Avenida, Caborê, Jabaquara… Mas que Paraty não perca o seu centro histórico. Como São Paulo perdeu, como o Rio de Janeiro também, embora agora esteja sendo revitalizado com o Cais do Porto, a Lapa etc. Mesmo assim, ninguém mora nesses centros históricos. E não dá para frequentá-los à noite. É mais ou menos o que está acontecendo com Paraty. Repito, infelizmente. Então eu acho que uma das precauções maiores é essa, a revitalização do Centro Histórico. Não deixando de ter comércio nem de ter atividades, mas convivendo pacificamente com a população que mora aqui. Tornando-se inclusive uma razão para que venham, frequentem, e deixe de se tornar uma razão para não vir.

PARATY.COM.BR – E o que, para você, não pode mudar em Paraty? 

DIUNER MELLO O jeito de ser. A gente ainda tem aqui uma qualidade de vida. Olha, não temos teatro, cinema, há muitas coisas que não temos aqui… A gente tem que viajar para desfrutar disso tudo. São Paulo é longe, o Rio de Janeiro é longe, mas aqui a gente tem tantas outras coisas boas… A facilidade de você andar na rua. De estar tranquilo, de encontrar as pessoas, de ser cumprimentado até por quem não nos conhece… Você passa uma, duas, três vezes pela mesma rua, na quarta vez alguém já te cumprimenta ou faz um comentário que está calor, puxa conversa, diz “olha, vai chover daqui a pouco…” Esse tipo de vivência eu gostaria que não mudasse. O paratiense, veja, ele é eminentemente caiçara, tira o produto dele do mar, o peixe, o caranguejo, o siri…De vez em quando o mar traz um afogado, então ele enterra, esquece e continua se aproveitando do mar. O caiçara é receptivo, o que vem por terra também ele agrega. É hospitaleiro, nasceu assim, vendo o mar que invade a cidade, que incomoda um pouco, mas que depois recua, e assim vai convivendo… O paratiense é meio isso. Se você de fora chega a Paraty aberto, receptivo, demonstrando que quer se integrar à vida daqui, ao jeito de ser daqui, a cidade te assume. Especialmente se você é uma pessoa boa. Há quem chegue contando que deu golpe aqui e ali, que fez isso e aquilo, se vangloriando de bon vivant, alegre, aí o paratiense até pode beber com esse sujeito, ele será bem aceito, embora vá ser difícil alguém fazer negócio com ele. Agora, se você chega de fora fingindo uma coisa que você não é e a cidade depois descobre, Paraty não briga, não. Ela te esquece. A cidade passa a ignorar essa pessoa. Ela pode andar por uma mesma rua quinhentas vezes e a cidade não vai vê-la. Sabe por quê? Porque esta pessoa também não vê a cidade, não vive a cidade, ela não participa, não entra na sua tecitura. É diferente de quem frequenta a Praça, vai até lá encontrar os conhecidos, um bebe, outro fala…Diferente  de quem um dia vai à igreja, ou acompanha uma procissão ou segue um enterro…Observo que não existe agressão nem repúdio, eu pelo menos nunca vi,  contra quem não se integra, não “entra” na cidade. O que eu sei e vejo é que a cidade simplesmente esquece essa pessoa. É muito engraçado, muito próprio daqui…

Conheça o jeito paratiense de ser:

PARATY.COM.BR – Qual é sua recomendação? O que ele não pode deixar de ver, de viver em Paraty?

Diuner Melo
Diuner Mello – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLO – Olha, considero o Centro Histórico um lugar muito importante de se ver. Primeiro porque ele é muito bem conservado. Nem acho que esteja conservado assim por uma questão cultural. É por razões comerciais, mas pouco importa. O que vale é que ele está bem conservado. A nossa sorte é que também temos uma delimitação física, entre dois rios, o mar e a parte de acréscimo da cidade, o que evita que você não saiba se está na parte tombada, como acontece em Diamantina, Ouro Preto ou Mariana. Aqui a gente tem um “quadrilátero” de tombamento, o que dá ao turista uma vivência muito interessante. Algo que talvez a gente, que mora aqui, nem note mais. Mas o turista diz “Voltei no tempo. Vou pisar numa rua de pedra, mal calçada, que torce o pé. Eu não deveria ter vindo de salto alto, seria melhor chinelo-de-dedo ou tênis”. Um outro local que recomendo é a baía de Paraty, realmente de beleza excepcional, com lugares lindos, recantos bem simpáticos. Lugares de estar, de beleza rara. Em síntese, há o Centro Histórico como arquitetura e a baía como natureza, além da Mata Atlântica com certas trilhas e lindas ruínas de fazendas no caminho. A própria Estrada Real ou Caminho do Ouro, com trechos interessantes, ainda proibidos à visitação. Por fim, uma das coisas que ainda mostram intensamente a cultura paratiense são a festas religiosas, como a Festa do Divino. Ou a nossa Semana Santa, que é ímpar. Tanto que recentemente a cidade espanhola de Alicante lançou uma revista incluindo uma reportagem sobre a Semana Santa de Paraty, por ela ser muito semelhante a da Espanha: com origem bem Ibérica, com as procissões e os santos em trabalho bem natural. A própria Festa do Divino, que existe em muitos lugares no Brasil, aqui ainda conserva um sabor comunitário, especialmente pelo almoço do sábado, que todo mundo faz e todo mundo come. Todos ajudam, todos esperam pela festa. Há também os eventos internacionais, como a Flip, o Encontro de Aquarelistas, o Paraty em Foco. São festas de qualidade. Mesmo o Bourbon Festival, altamente interessante, moderno. São eventos que cabem na cidade.

PARATY.COM.BR – Observador atento, historiador nato, você tem algum acervo particular, alguma coleção de peças raras da cidade, dos festejos?

DIUNER MELLO Não. Não coleciono nada, nem selo. Minto, uma vez comecei a colecionar canecos do Festival da Pinga, mas quando chegou lá no vigésimo eu disse, não, já tem Festival da Pinga demais. E dei tudo de presente. Às vezes há coisas que eu guardo, como fotos antigas. Mas costumo repassar para o IHAP (Instituto Histórico e Artístico de Paraty), para ficar acessível ao público. Nada precisa ficar dentro da minha casa, trancado. Se eu quiser ver, consultar, eu também vou lá e vejo.

PARATY.COM.BR – Você faz parte da diretoria do IHAP? Como é o trabalho do Instituto?

DIUNER MELLO – Sou um dos sócios fundadores. Por acaso, na fundação efetiva, em 1976,  só havia dois paratienses, eu e Ana Zita. Mas depois chegaram outros. Já fui presidente do IHAP, ultimamente tenho sido tesoureiro. É um trabalho de investigação, pautado em minúcias para preservar a memória local e o patrimônio material e imaterial. Por exemplo, quando a Câmara Municipal nos repassou os livros e o IPHAN nos passou a documentação que tinham, nós ficamos cinco anos trabalhando em cima dos dados. Lemos mais de cinco mil documentos para escolher quinhentos e compor nosso acervo. Entre eles montamos o chamado dossiê Paraty-Mirim, com dados a partir de 1790. E um outro documento, entre tantos interessantes, relativo à Igreja de Santa Rita, que foi construída em 1722. Em 1790, porém, o Padre Veludo pede à Câmara para registrar um documento: é o pedido dos fieis para a construção, datada de 1722. Não se consegue chegar a uma conclusão desse conflito de datas, mas está tudo registrado: a petição, o despacho do Bispo, o despacho do Rei, verificação das visitas até o dia da aprovação da Igreja para a  cerimônia, mais de setenta anos depois…

PARATY.COM.BR Para finalizar, vamos falar de sua obra. Quantos livros você já publicou?

Diuner e seus livros
Diuner e seus livros – Foto: Ricardo Gaspar

DIUNER MELLO – Foram seis livros até agora. O primeiro foi um altamente comercial, chamado Roteiro do Visitante, de 1976. Foi reimpresso, ampliado diversas vezes, está sempre atualizado, mas é um livro para o turista. Depois foi publicado o Paraty no ano da Independência, que é, na verdade, uma reedição em livro de artigos de jornal escritos por Samuel Costa. Por acaso eu havia copiado o que ele escrevera para o jornal, tinha tudo datilografado e guardado. Eu era muito amigo da filha dele, Maria Luiza Costa, e quando ela morreu, acabei recebendo de seus filhos duas pastas que ela reservara para me entregar, contendo cadernos de escola do Samuel Costa, poemas escritos por ele, sonetos, documentos, cartas. Reuni todo esse material, acrescentei a biografia dele, seus discursos e publiquei o livro, com ilustrações que são desenhos dele e com a capa trazendo uma fotografia feita por ele. Naquela ocasião eu estava trabalhando em um livro sobre a maçonaria e numa daquelas pastas que recebi da filha do Samuel Costa veio para minhas mãos uma faixa de Gran Maçom do tataravô dela. Foi uma forte emoção, eu pensei “isso não é coincidência”…, e acabei finalizando o livro, que se chama Paraty e a Maçonaria, no qual publico a faixa que recebi. Outro livro que fiz sem pretensão, mas que considero bom, é o A Festa do Divino – Manual do Festeiro, um livro marcante na minha vida. Meu pai foi festeiro por muito tempo. E eu resolvi ensinar a fazer a Festa do Divino, com um manual de A a Z, como fazer isso, como fazer aquilo, à semelhança daqueles tratados de Medicina ou de Direito da Família (risos). No meio do processo eu percebi que não poderia falar da Festa do Divino de Paraty sem cotejar com as outras do Brasil, com a de Portugal, a dos Açores que é a mais importante de todas. E mais as origens pagãs da Festa do Divino… Enfim, fiz um livro que considero meu melhor trabalho. Teve também o Roteiro documental do acervo público (Roteiros 1 e 2), que escrevi com a Zezé (Maria José Rameck, presidente do IHAP), além de ter participado da edição da Enciclopédia Caiçara, com o Carlos Diegues, e do livro Mamanguá, com o Paulo Nogara.  Mas meu livro mais recente é o Paraty Estudante, com a primeira edição de 2002. Reúne tudo sobre Paraty, estatísticas, dados, lendas, gastronomia, tudo o que possa servir como dados escolares. Passei os direitos autorais desse livro ao IHAP, com a obrigação de a Prefeitura distribuir nas escolas públicas, de 4ª à 8ª série. Há dois anos saiu uma segunda edição, com dados do IBGE atualizados. Por incrível que pareça, a dimensão de Paraty em quilômetros quadrados era uma, 907 Km², e agora é outra, 2007 Km². Liguei para o IBGE para esclarecer a charada: -“Como assim, Paraty esticou?” – “Não, não esticou, é que agora se contam as ilhas”. Ah, muito simples! Bem, mas essa edição traz número de médicos, de escolas, bibliotecas. É um livro que me deu prazer. E já vai ser preciso tirar uma nova edição. Vou aproveitar e contar um fato muito interessante relacionado a esse livro. Primeiro com relação ao título, Paraty Estudante, na verdade um jogo de palavras, que pode significar a Paraty que estuda ou “para você, estudante”. Agora uma história e tanto que me aconteceu. Um belo dia eu estava subindo a avenida (Roberto Silveira), por acaso com um exemplar do livro na na bolsa pois ia presentear uma determinada pessoa. Encontro então com um senhor da zona rural, um homem simples, que para perto de mim e diz “O senhor é o Diuner?” Eu disse que sim. E ele: “Eu queria falar uma coisa importante com o senhor. A minha sobrinha estuda aqui no Pequenina Calixto, e ela ganhou um livro que o senhor escreveu. Levou o livro para casa. E aí eu comecei a ler. Na semana  passada, minha sobrinha foi em casa e pegou o livro, dizendo que era dela. Certo, mas eu não terminei de ler…”. Antes que ele me perguntasse onde poderia achar o livro, eu tirei o exemplar da bolsa e disse: “Tá aqui o seu livro.” A grande alegria dessa história foi minha. Eu ganhei um presentão!

Você sabia? Diuner Mello conta aqui

Igreja Nossa Senhora da Dores - Capelinha - Foto: Ricardo Gaspar
Igreja Nossa Senhora da Dores – Capelinha – Foto: Ricardo Gaspar

SOBRE A CAPELINHA
“A Capelinha, a igreja mais nova de Paraty, é de 1800. Originalmente era um pouco menor. Foi totalmente reformada e ampliada em 1900. Sua arquitetura foi uma inovação no século dezenove. E o interessante é que foi construída por mulheres. E frequentada por elas. De homem só entrava o padre para celebrar a missa, e olhe lá. As mulheres é que administravam tudo. A irmandade que funcionou aqui até 1950 também só admitia mulheres… Por essas e outras costumo dizer que Paraty não é uma cidade feminista, ela é feminina.

Observe… Não há uma igreja dedicada a santo, só a santas, embora nosso primeiro padroeiro tenha sido São Roque, mas ele foi destronado por Nossa Senhora dos Remédios. Além dela, há Nossa Senhora do Rosário, Santa Rita, Nossa Senhora das Dores… Só mulheres. E foram mulheres personagens importantes da história de Paraty: Maria Jácome de Melo, que doou as terras para construir a cidade, e Geralda Maria da Silva, uma mulher maravilhosa, rica e poderosa, que também investiu dinheiro na construção da igreja.
Esta, então, é uma cidade feminina. A imagem de Nossa Senhora das Dores, que hoje está aqui na Capelinha, veio da Matriz antiga, quando foi demolida. Hoje, a Capelinha está belíssima, foi restaurada nas cores originais. Está aberta à visitação aos sábados e domingos, e tem missa às segundas-feiras, às sete e meia da noite.”

 

CAIÇARA E CIRANDA 
“Originalmente, caiçara era o morador do sul do Rio de Janeiro, de Angra dos Reis até Paranaguá, no Paraná. Só.
Hoje, no entanto, o termo se universalizou, todo morador de litoral é chamado de caiçara, do Nordeste até aqui.
Na verdade, caiçara é o cerco de peixe. É a mesma cerca que os índios faziam em volta da aldeia, os Tupis, Tupinambás e Tamoios.
O homem caiçara é o resultado da miscigenação do branco europeu com o índio, com quase nenhuma participação de negro. Porque o negro não ficava no litoral, era mandado para as fazendas, para o interior do Brasil. São curiosas certas expressões indígenas que usamos em Paraty, como cuí, o pó da farinha. “Isso é um cuí”, ou seja, um pouquinho do pouquinho, o mínimo do pouco. Tanto aqui como em Paranaguá a expressão tem o mesmo sentido. Isso se explica porque o morador daqui ia e voltava de canoa até Paranaguá. Esse intercâmbio de cultura foi precioso, tanto que a dança, a ciranda, o cateretê, que é a catira paulista, existe de Paranaguá até aqui. Com variações. As cirandas de Ubatuba e de Caraguatatuba, por exemplo, são um pouquinho diferente da nossa, mas têm a mesma origem caiçara do século dezoito, que difere muito mais das danças do interior, das paulistas e mineiras.”

 

ONDE COMPRAR OS LIVROS DE DIUNER MELLO:

>> Livraria de Paraty

>> Paraty Store, nossa loja virtual de produtos de Paraty

 

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Histórias de vida e de lugares sempre me interessaram. Como jornalista, sou movida a ideias e boas pautas. Desde 2004 escolhi viver em Paraty, onde sou mais leve e contemplativa. Trabalho em casa, no meu escritório com alma e vista para o verde, e não me desconecto. Assumo completamente que o ambiente digital é uma das minhas praias preferidas, ainda mais agora, integrada à equipe do www.paraty.com.br . Escrever sobre Paraty, dirigindo-me a quem mora por aqui e a quem chega para curtir a cidade, é uma das minhas grandes fontes de prazer e inspiração. Outras são a fotografia e a cor azul, que me levaram a criar o blog http://adoroazuis.blogspot.com.br, para expressar o que encontro de azul no mundo. Claudia Ferraz

5 Respostas para “O SENHOR DA HISTÓRIA”

  1. Wellington de Oliveira Borges disse:

    Para..ti Para..nós Para..todos!!!!!!
    Esse vai ser o sexto Final de Ano que irei passar nessa linda cidade.
    Agradeço desde já a todos moradores que nos recebem muito bem.

    Wellington Borges

    Osasco sp.

  2. Débora Oltramari disse:

    Claudinha,
    Que maravilha de entrevista!!!
    Tanta coisa interessante e importante que todos deveriam saber sobre Paraty!
    Isso deve ser conteúdo escolar, principalmente nas escolas locais. Será que é?
    O Diuner é admirável pelo seu entusiasmo e dedicação para com a história de Paraty.
    Parabéns aos dois pelo belíssimo trabalho.
    bj

  3. Bernadete Passos disse:

    Obrigada Claudia por nos presentear com esta linda e importante entrevista. Obrigada Diuner Mello!!

  4. Nina Silva disse:

    Parabéns, Diuner é sempre muito bom ouvi-lo
    Claudia, parabéns tbm pela iniciativa
    Azul a todos

  5. Marina disse:

    Cláudia, Estou encantada com a entrevista que vc fez com o Diuner. Não sei se ele sabe, mas eu tenho uma grande admiração pelo trabalho dele. Suas palestras me fascinam.Posso ficar horas ouvindo seus relatos. Ele merece ser respeitado.
    Essa sua entrevista está incrível! Até já
    imprimi para ler com calma.
    Parabéns pelo seu trabalho Bj

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