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PARATY TURISMO
E ECOLOGIA

(06/07/2011)

Mesa Zé Kleber

A escrita e o território
 

Cenário: um campo de refugiados no Quênia, com 100 mil habitantes, 80% deles sudaneses. A artista plástica e articuladora cultural brasileira Marie Ange Bordas (foto home), que trabalha com comunidades em crise para integrar arte e literatura no processo de resgate cultural e percepção do território, tem diante de si um punhado de crianças e jovens que habitam o campo há quase uma década. “Como é sua vida?”, ela pergunta. A resposta é padronizada e consiste, basicamente, no discurso das organizações humanitárias, que reduz a vida deles à crise - somos pobres, a Aids é um problema, a violência doméstica é outro, não há comida ou remédio suficientes. Marie Ange começa então a fazer o que faz melhor: um processo de alfabetização visual do grupo. E cria uma fotonovela com os meninos. O resultado desse tipo de iniciativa é palpável: ao final do processo, os meninos reconheciam aquele espaço como seu, descobriam e valorizavam as muitas riquezas presentes (“Se eu tivesse ficado em Mogadixo, na Somália, não seria a pessoa que sou hoje” ou “Na minha aldeia, só se falava uma língua, mas aqui tem um menino que fala sete línguas!”).

“O que faço é usar a ficção para desconstruir o discurso pronto e, com isso, é possível descobrir que há riqueza em torno de si”, explicou Marie Ange na manhã de hoje a um auditório lotado na Tenda dos Autores. Na Mesa Zé Kleber, um espaço aberto à comunidade de Paraty dentro da Flip, para refletir sobre questões locais, também estavam a antropóloga francesa Michèle Petit (à direita na foto), que pesquisa a leitura em espaços de crise; e a arquiteta franco-alemã Dominique Gauzin-Müller (à esquerda), que estuda e propõe soluções arquitetônicas sustentáveis. As três descreveram experiências e apontaram soluções que envolvem a integração da leitura à arquitetura e à cultura, particularmente em situações de crise.

Michèle, cujos estudos mostram como o ato de ler, coletiva ou individualmente, ajuda os indivíduos em situações de crise, relatou uma experiência de leitura mediada para crianças de uma comunidade carente em Bahía Blanca, na Argentina. A mediadora relacionou textos a seres, coisas e lugares de Bahía Blanca, de forma que, ao final do processo, esses espaços adquiriram um novo valor. “Para essas crianças, os espaços de Bahía Blanca estão agora atados a poemas e outros textos, graças à interposição, entre eles e o real, de um tecido de palavras e imagens”, disse Michèle, confirmando a experiência queniana de Marie Ange e a descoberta de riquezas onde antes só havia a crise.

Ela própria constatou, em recente visita ao Brasil, a importância da interposição desse “tecido”: “Uma amiga me levou a uma fazenda no interior de Minas e, pela primeira vez, eu vi o céu do Hemisfério Sul. Foi uma absoluta surpresa não encontrar a Ursa Maior e outras constelações com as quais estou familiarizada. Minha reação imediata foi procurar o Cruzeiro do Sul, de que ouvira falar. Percebi, então, como as constelações respondem à nossa necessidade de contar histórias. Precisamos do abrigo de uma cultura - como o céu sobre nossas cabeças - para que o mundo seja habitável”.

Dominique, que propõe “uma abordagem eco-responsável”, contou, por sua vez, o caso da cidade de Tubinga, na Alemanha, que, depois da queda do muro de Berlim, precisou reconstruir uma cidade nova ao redor da cidade histórica. Com apoio da prefeitura, grupos de habitantes foram auxiliados por arquitetos a projetar suas residências para quatro ou cinco famílias em terrenos de 100 metros quadrados, procurando seguir o modelo arquitetônico da cidade histórica - por exemplo, mantendo o comércio e oficinas nos pisos térreos dos imóveis - e priorizar as conexões a pé ou de bicicleta. “No início, há 15 anos, os bancos estavam reticentes para emprestar dinheiro a esses grupos, mas hoje 70% dos novos edifícios são construídos por grupos de habitantes de Tubinga”, relatou Dominique. “Não é uma arquitetura belíssima, mas é muito viva e diversificada.” A arquitetura, diz ela, é uma ferramenta para aproximar o saber e a prática e para transformar a vida.

Mas foi a brasileira Marie Ange que conectou a primeira mesa de quinta-feira com a conferência de abertura. Ela lembrou o que dissera, à noite, o professor José Wisnik sobre a importância de envolver a educação com a cultura. “Acho que é preciso também incluir a política, com P maiúsculo”, afirmou. Só a política em sua acepção mais abrangente permite articular o individual e o coletivo, criando espaços de reconhecimento da diferença. E citou a filósofa Hannah Arendt, para quem o sentido da política é a liberdade e seu objetivo, a felicidade. Marie Ange concluiu sua participação com outra citação de Arendt: “Sem um espaço de aparência e sem acreditar na ação e no discurso como um modo de estar juntos, nem a realidade de si mesmo, da própria identidade, nem a realidade do mundo ao redor podem ser estabelecidas”. A leitura, a arquitetura e toda iniciativa cultural, como um céu sobre nossas cabeças, ajudam a compor essa política transformadora, com P maiúsculo.

Foi também Marie Ange que reconheceu no auditório os professores da rede estadual de ensino, que desde ontem se manifestam nas ruas de Paraty por melhores salários e melhores condições de trabalho. “As pessoas dizem que ‘isso é o Brasil’, mas, como sou nômade, posso garantir que não é uma questão de país, é uma questão de sistema”, explicou, arrancando aplausos entusiasmados da plateia.

 

FONTE: www.flip.org.br

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