A cada nova coleção que Ronaldo Fraga coloca nas passarelas e vitrines, confirma-se a suspeita de que a palavra “estilista” seja muito pequena para definir a atuação profissional deste designer, pesquisador, ilustrador e mais. Há sempre muito mais em suas coleções do que cartela de cores-modelagem-silhueta-tendências da estação. A roupa criada por Ronaldo traduz o Brasil, traz emoção, conteúdo e, nem por isso, perde graça e leveza. Irreverência, criatividade e estética afinam o conjunto. Quando escolhe um tema - como, por exemplo, a obra de Cândido Portinari, no lançamento para o verão 2015 na última edição do São Paulo Fashion Week -  ele vai fundo, o incorpora, amplia inventa: não é mera referência ou sutil inspiração.
Ronaldo Fraga fará palestra no evento Paraty Eco Festival (16 a 19 de outubro), onde pretende falar de dois de seus projetos: Design na Pele, que deu origem a sua coleção Carne seca (para o inverno 2014) e outro que envolveu seis meses de trabalho junto a artesãs no Sudeste do Estado do Pará e deu origem à coleção Um Turista Aprendiz na terra do Grão-Pará,para o inverno 2013. Em comum entre os dois, a parceria com artesãos brasileiros e a valorização de suas técnicas e práticas tradicionais. Design na Pele envolve o trabalho artesanal em couro e reunirá artesãos do sertão nordestino (Pernambuco e Ceará) a um curtume do Rio Grande do Sul que, segundo ele, “é mais um vetor cultural, ainda trabalha de forma bastante artesanal”.
Em sua última coleção (O Caderno Secreto de Cândido Portinari), Ronaldo utilizou um novo tecido produzido com fio que se decompõe mais rapidamente ao ser descartado em aterros sanitários (mas não se decompõe quando ainda está em uso, não!). Ao ser questionado sobre de que outras maneiras seu trabalho preserva o meio-ambiente, responde: “Eu poderia falar que uso material orgânico, que trago o artesanato, mas prefiro mencionar uma questão muito maior, que é a humanização do processo, promover uma apropriação cultural da memória com seu entorno. É uma sustentabilidade estética: evitar o rompimento que é esta memória cultural indo embora por causa da industrialização. Outra coisa que faz meus olhos brilharem para uma nova coleção é ver como o designer funciona como ponte entre o Brasil feito à mão e a indústria. Trouxe isso em várias coleções, por exemplo, as joias em Tucumã, no Turista Aprendiz, e agora com a cultura do couro, no sertão do semiárido.”
Este tipo de atuação pode ser ampliado? “Sim, e é muito importante que o Brasil tenha outros Renatos (Imbroisi, designer e artesão, diretor artístico do evento), outros Ronaldos, porque tem muito lote pra capinar, muita laje pra gente bater. Mas sou otimista: há 15 anos, não entendiam minhas coleções, achavam que eu fazia ‘traje típico’, mas hoje vejo muitos novos estilistas entrando no mercado com essa visão. Isso não é exclusivo do Brasil, é um momento do mundo em tempos desmemoriados.”
E o que Ronaldo Fraga espera de sua participação no Paraty Eco Festival? “Um diálogo de diferentes frentes com foco na mesma questão, especialmente neste momento em que a palavra ‘sustentabilidade’ está desgastada, por ter entrado na moda e ser usada a torto e a direito - qualquer pessoa que faça 3 camisetas de fibra de bambu já diz que tem trabalho sustentável; neste momento, acho importante levar a sustentabilidade para além da questão ambiental.”


FONTE:http://paratyecofashion.com.br