Belita Cermelli - Foto: Ricardo Gaspar
Belita Cermelli

Por: Claudia Ferraz

Colaborou: Mary Lacerda

Fotos: Ricardo Gaspar

Ela acabou de fazer 46 anos. Mas é dona de um jeito simples e espontâneo, que quase sempre deixa solto seu lado menina meio moleca, acentuado pelo sorriso fácil, que não esconde uma certa ingenuidade, e pelos gestos largos que orquestram sua fala. Apaixonada por Paraty, onde nasceu e se criou, orgulha-se da sua mania de ter fé na vida. Foi parceira no lançamento da semente da Flip em 2002 e desde então se confessa obstinada pela certeza de que é possível transformar possibilidades teóricas em realidade.  Atuando no coletivo, sua meta de cidadã é alterar de fato a qualidade de vida de crianças e jovens pela via da cultura e da educação, e fazer de Paraty uma cidade de leitores.

Diretora em Paraty da Associação Casa Azul, organizadora da Flip, Izabel Costa Cermelli, a Belita, como é conhecida por todos, trabalha com determinação, sempre com olhos bem abertos a cada detalhe. Sua formação em física justifica o pensamento matemático que a leva a ser rigorosa em termos de planejamento e realização.  Mas na vida pessoal, praticar tai chi chuan, curtir a filha Rosa, de oito anos, e tomar banho de cachoeira são suas referências mais marcantes. Às vésperas da 12ª Festa Literária Internacional, entre mil e um compromissos, ela abriu sua agenda para esta entrevista exclusiva ao portal paraty.com.br. Vale dizer que, louca por tecnologia e dependente assumida de celular e redes sociais, Belita falou por quase duas horas, sem consultar seus emails uma vez sequer. A conversa, por escolha dela, aconteceu ao ar livre, na Praça São José Operário, na Ilha das Cobras, bairro popular de Paraty onde está instalada desde 2013 a Associação Casa Azul e sua Biblioteca. Siga com a gente nesse bate-papo que começa sobre a magia que, há onze anos, se instala em Paraty durante os cinco dias da Flip. BELITANossa, magia mesmo, só que há mais de onze anos! O marco é a primeira Flip, sem dúvida, mas houve todo um trabalho prévio de concepção, com raízes lá em 1994. Nessa época, o Mauro Munhoz, diretor- presidente da Casa Azul, que é arquiteto, já vinha trabalhando com questões urbanísticas de Paraty, pensando os espaços públicos e levantando algumas questões ambientais que a cidade vivia. Em linhas gerais, ele estava envolvido no pensar o futuro de Paraty, pensar para onde a gente estava indo com relação ao fluxo turístico na cidade, olhando para o assoreamento da baia, buscando entender os reflexos da história recente de Paraty. O Mauro acabou se aprofundando nessas observações, nessas evidências e todo esse estudo acabou virando objeto do mestrado dele. Já na época ele era muito amigo da Liz Calder, editora inglesa reconhecida internacionalmente, e apaixonada pelo Brasil, mais especificamente por Paraty. Ela, junto com o Mauro, também passou a se perguntar para onde a cidade, cada vez mais turística, estava indo, ao mesmo tempo em que se acentuavam as contradições e as questões sociais graves do seu dia a dia.

Belita Cermelli - Foto: Ricardo Gaspar
Belita Cermelli fala sobre a FLIP

A pergunta que afligia era “o que vai acontecer com Paraty?” Os dois levavam em conta que os projetos voltados ao território, nos quais o Mauro estava envolvido, eram de longo prazo, com metas de realização prevendo cerca de quinze, vinte anos. E se questionavam como então seria possível intervir mais a curto prazo,  buscando qualificar aquela mutação que ocorria na cidade. Foi quando a Liz Calder, com toda sua experiência de uma editora conhecida no mundo inteiro, que já tinha lançado grandes autores, e uma mulher de muito bom gosto, frequentadora de tantos  festivais literários pelo mundo, acabou tendo a ideia. Andando por Paraty, ela se percebia dentro de uma história do Gabriel Garcia Marques. E teve a inspiração para sugerir a criação de um festival literário, certa de que, quem viesse, iria se deslumbrar. Um festival literário é evento que costuma acontecer anualmente.  O formato parecia o ideal, seria preciso pouco mais de um ano para produzir e fazer acontecer a ideia que, possivelmente, iria gerar algum resultado positivo a mais curto prazo para Paraty. A ideia se consolidou em 2002, quando a Liz Calder, que já publicava alguns autores brasileiros, levou um grupo deles a Hay-on-Wye, cidade no País de Gales onde acontece o festival que serviu de modelo para a Flip. Na época, eu era casada com o Mauro. Ele estava próximo do editor Luiz Schwarcz, havia feito uma casa para ele. O Luiz já editava aqui muitos dos autores que a Liz editava lá fora. Foi então, depois dessa ida ao Hay Festival, que aquela tríade genial, Liz, Mauro e Luiz, lançou a semente com a força certa para que aquele sonho de um festival literário virasse realidade um ano depois, aqui em Paraty. PARATY.COM.BRA Associação Casa Azul passou, então, a existir a partir dessa ideia? BELITASim, ainda quando pensávamos que seria apenas um festival literário e nem sonhávamos com a dimensão que a ideia iria ganhar. Até então, os projetos que o Mauro realizava não aconteciam numa instituição específica. Mas sabíamos que a realização do festival iria gerar alguma movimentação de recursos. Porque os editores brasileiros, através do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, começariam a aportar uma pequena quantia cada um, para que o projeto pudesse ser formatado e inscrito na Lei Rouanet, o que nos permitiria fazer os primeiros convites a autores. Para receber esse dinheiro e dar andamento aos demais projetos do Mauro, ligados à revitalização sustentável de Paraty, criamos a ONG Associação Casa Azul, em junho de 2002, um ano antes da primeira Flip. PARATY.COM.BRFoi aqui o primeiro escritório da Casa Azul? BELITAFoi em Paraty, sim, apesar de funcionar como filial. Nossa ideia sempre foi abrir uma instituição com sede em Paraty. Mas na época não havia na cidade nenhum escritório de contabilidade da nossa confiança que pudesse pegar novos clientes. Todos estavam cheios de trabalho. Tivemos que recorrer a um escritório de São Paulo, o que fez com que a matriz ficasse lá, com endereço paulistano. Entretanto, no início, o escritório funcionava de fato em Paraty, na filial. Hoje são dois os escritórios da Associação Casa Azul. Há ações  que acabam ficando mais centralizadas no escritório de Paraty, porque têm a ver com esse território aqui à nossa volta, onde a gente estabelece as relações para realizá-las. E há outras que acabam tendo mais peso no escritório de São Paulo, também porque nem todos os projetos da Casa Azul, hoje, são em Paraty. Mas somos uma instituição só, com os mesmos objetivos. A  missão da Casa Azul é a mesma e nossos escritórios trabalham inter-relacionados e de forma muito dinâmica todos os dias, com troca de e-mails, reuniões por skype e telefone o tempo todo. PARATY.COM.BRPor ser paratiense, que peso você teve naquele desenho inicial da Flip em função do que a cidade poderia absorver e do que poderia oferecer a quem viesse? Foi um balizador importante o fato de você ser da terra, conhecer os costumes, o jeito de ser do paratiense?

Belita Cermelli fala sbre a FLIP - Foto: Ricardo Gaspar
Belita Cermelli fala sobre a FLIP

BELITAAh, nas reuniões inicias eu sempre estava com eles, Mauro, Liz e o seu marido Louis Baum, e o Luiz Schwarcz. Da turma, eu era a única paratiense, com a experiência de ter morado aqui por muito tempo, enquanto eles vinham, mas só para visitar. Então, foi essa minha vivência de Paraty que me levou a colocar, logo nas primeiras reuniões, que a gente não deveria chamar de festival literário aquela ideia que nascia, e sim de festa. Porque festa é uma coisa tradicional de Paraty e que envolve a comunidade local. Se a gente queria de fato que a ideia não fosse um disco voador, para chegar simplesmente à cidade, ficar durante uns dias e depois ir embora, o nome correto não poderia ser festival. O que a gente queria era que a ideia se enraizasse. Ganhasse significado para as pessoas daqui. E começamos a brincar, dizendo que deveria ser como uma festa tradicional – a Festa do Divino, de Nossa Senhora dos Remédios, a Festa de São Pedro e São Paulo da Ilha do Araújo… O conceito imaginado pedia essa relação íntima, próxima, familiar com a cidade. E foi esse o nome, Festa Literária Internacional de Paraty. No primeiro ano da Flip, em 2003, eu estava morando na cidade e o escritório de produção era em Paraty. Na verdade, na sala da minha casa, porque não havia uma sede. Foi o certo: com um QG montado aqui, a gente era muito mais capaz de ir fazendo o que fosse preciso, do que se estivéssemos longe. Dava para fazer uma leitura do que acontecia  na cidade, de como os paratienses estavam vendo a Flip, de tirar dúvidas, negociar soluções, fazer parcerias, de procurar espaços agradáveis para os eventos… Além de estarmos próximos para fazer reuniões regulares com grupos de moradores, grupos de empresários, para conversar sobre o que pensávamos fazer e para ouvir sugestões e mesclar todas aquelas coisas que iam acontecendo naqueles primeiros momentos. PARATY.COM.BRPois é, o tempo correu, a Flip é realmente uma festa incorporada à cidade e está prestes a acontecer sua 12ª edição. Dá para resumir em poucas palavras a força dessa experiência de onze anos? Como é o processo de se montar uma Flip? Tarefas, equipes, etapas, como é isso ao longo do ano? BELITAÉ sempre uma loucura, no sentido que envolve várias pessoas, porque o volume de trabalho é muito grande. Quem está  acostumado a trabalhar com evento conhece essa característica: você vai num crescendo, num crescendo, aquela data vem chegando, se aproximando de você, e tudo tem se encaixar, é necessário que tudo dê certo! O resultado, esse encaixe de todas as coisas chegam num ápice, nos dias do evento, e depois tudo termina… Dá aquela baixada, não é? (risos) Pois trata-se de um trabalho que flutua, a intensidade dele oscila, se alterna. No início, a gente não conseguia manter a equipe doze meses por ano. Foi só com o desenvolvimento de outros projetos dentro da Casa Azul que a gente teve condições de garantir trabalho para a equipe doze meses por ano, o que é ótimo pois  garante continuidade. A pessoa aprende trabalhando para uma Flip e, se continua na equipe, estará muito mais preparada para lidar com aquelas mesmas questões – e com outras novas – no ano seguinte. Tem sido muito importante alcançar essa continuidade e ter conseguido outros projetos, o que mantém boa parte da equipe ao longo do ano. PARATY.COM.BRNesse sentido, que objetivos tem a Casa Azul além da Flip? Pode-se dizer que a instituição tem caráter educativo? BELITASim, o caráter educativo sempre esteve nas ideias iniciais do que seria a Casa Azul. Antes mesmo da Flip vínhamos fazendo um trabalho nas escolas para subsidiar os projetos urbanísticos, as propostas para os espaços públicos de borda d’água. E quando a gente pensou a Flip também pensou a Flip atrelada aos projetos de educação. Esse seria um jeito de garantir a permanência aqui em Paraty. E o que é a permanência? É não ser um evento que vem, acontece, faz alguma coisa durante alguns dias e some da cidade. Só permanecendo é que a gente cria essa relação próxima, constante, intensa, interessante para as partes durante todo o ano. Já na primeira Flip a gente se preocupou com a questão da educação, da continuidade, da permanência. Porque é óbvio, aquela pessoa que é uma criança hoje, daqui a pouquinho será um adolescente, estará  votando e logo será um adulto, um protagonista dessa sociedade, dessa cidade. Estamos fazendo agora, praticamente, doze anos de Flip.Então, uma criança que participou com cinco anos, hoje tem dezessete. Aquela que tinha dez na primeira Flip, hoje tem vinte e dois, provavelmente é uma pessoa que está trabalhando, quem sabe terminou uma faculdade. É muito rápido, sabe? E trabalhar com educação tem esse sentido de formação, de ajudar a pensar isso, em como essa sociedade está estruturada para encarar os desafios que estão vindo e virão ao longo dos anos, em um futuro próximo. Cinco anos, dez anos, as gerações vão se alternando, com pessoas que estão pensando a cidade, propondo soluções. PARATY.COM.BRE a Flip acaba sendo um registro do crescimento dessas gerações. Já vai para a segunda… BELITAÉ verdade. Há depoimentos lindos, como o de um jovem falando “ Eu participei da Flipinha, agora participo da FlipZona. Quem sabe um dia eu vou participar como autor da Flip!” Na avaliação de Belita, muita coisa mudou na cidade com a existência da Flip: “…Questões que a cidade teria que enfrentar em dez anos, tiveram que ser enfrentadas em dois. Tanto para o lado bom quanto para o ruim… Especulação imobiliária, Paraty quase um espaço locado para eventos que não necessariamente se identificam com a cidade… Mas muita coisa positiva… uma efervescência cultural muito grande… Não digo que é resultado exclusivo da Flip, mas ela plantou uma semente, e o que a gente vê agora é como se fosse um renascimento cultural de Paraty, sabe? … Grupos musicais  iluminando nossas raízes culturais…Escritores! O selo Off Flip é uma conquista enorme! … Crianças e adolescentes lidando com livros na sala de aula, em casa…Loja de brinquedos com estante de livros, porque as crianças agora curtem ganhar livros de presente…Três livrarias bem consolidadas na cidade…Pousadas e restaurantes se qualificando… Não mais aquela sazonalidade, hoje Paraty tem visitação o ano inteiro… Veja a fala completa no vídeo:

 

Belita conta como Paraty é avaliada pelos escritores convidados da Flip: “...Eles são muito queridos enquanto estão aqui,  muito bem tratados. Isso é do brasileiro em geral e da equipe também, do treinamento que a equipe recebe… E está na natureza de cada um. Quem trabalha na Flip gosta muito da Flip. Gosta de estar  em Paraty. Quem é de Paraty gosta da cidade em que mora. Então isso transparece… Os escritores saem encantados…Mata, mar, cachoeira, a natureza de Paraty é muito impactante para o estrangeiro… O nosso patrimônio de pedra e cal, o centro histórico, uma riqueza cultural muito própria…as instalações, a organização do evento, eles ficam impressionados…Há um livro de ouro, onde eles deixam declarações… Muito legal… Veja a fala completa no vídeo:

PARATY.COM.BRPor gostarem tanto de participar, é comum um  escritor pedir para ser convidado outra vez? BELITAA gente sempre diz: uma vez autor Flip, sempre autor Flip. Se eles quiserem voltar, sempre há jeito de dar uma ajuda. Não talvez financeira. Mas oferecendo hospedagem, transporte… Estamos sempre abertos a atender, ajudar para que eles se organizem e desfrutem de novo da experiência em Paraty. É sabido, os autores que vêm para a Flip não recebem cachê. E realmente essa é a melhor propaganda para conseguirmos trazer um autor que ainda não tenha vindo e, muitas vezes, que não tenha nunca vindo ao Brasil. Se ele ouve daquele autor que ele gosta, que seja amigo dele, um comentário falando “Ah, a experiência foi inesquecível. Aquela cidade é maravilhosa, quero voltar”, o efeito é  impressionante. É esse boca a boca que possibilita a gente  conseguir trazer mais e mais autores. Todos eles de alta qualidade e que voltam para casa com uma impressão muito incrível mesmo da cidade. PARATY.COM.BRE você, como vivencia suas emoções ao começar e terminar uma Flip?

Belita Cermelli fala da FLIP - Foto: Ricardo Gaspar
Belita Cermelli fala da FLIP

BELITAEntão, vai chegando a Flip e minha vida vai acelerando. Eu vou acelerando. São muito mais assuntos que eu tenho que lidar, tenho que decidir e dar respostas muito mais rápidas… No ano passado, percebi que eu andava pela rua como se tivesse um mantra interno, eu ia assim: Flip. Flip. Flip…Hoje, por exemplo, eu já estou assim, a Flip já está aqui dentro, preenchendo muito espaço. E está lá fora, na cidade, também. Por mais que a montagem não tenha terminado, os autores e o público ainda não tenham chegado, para toda a equipe a Flip já está a mil por hora! Como eu já falei, a gente vai num crescendo, sabe? E depois de onze anos, parece que a chegada da Flip está associada a essa época, com esse tipo de luz no céu, com a maré alta, o cheiro do inverno…Com festa junina misturando as sensações. Festa de São Pedro, a procissão de barcos. Coisas, sensações que já estão muito ligadas à Flip para a gente que trabalha nela. Profissionalmente, é um período muito gostoso, também porque se descobre essa força do trabalho em equipe. A gente acaba se relacionando muito mais uns com os outros, aprende a ser mais claro, mais generoso, sabe? E a não dar espaço pra mal-entendidos. Então isso une a equipe. A cada ano isso é igual, se repete, e é muito bom. Dá, às vezes, um estresse, uma pessoa dá uma desmontada, eu mesma desmonto…Mas o que dá o tom é essa força da união de todo mundo feliz, intenso, para fazer a Flip acontecer. Depois que passa, vem, sim, um vazio. Parece que o pé sai um pouquinho do chão, sinto como uma nuvem na cabeça por um tempinho… Há pessoas que são contratadas temporariamente, então vão embora; outras que ainda continuam e ainda as que são permanentes. Porque muitas coisas continuam acontecendo depois da Flip: processar todos os pagamentos, fazer a desmontagem do evento, já ter o projeto inscrito do ano seguinte na Lei Rouanet e continuar captando para o ano que vem…Aliás, a captação acontece o ano inteiro, trata-se de um grande esforço. Os projetos culturais não conseguem uma sustentabilidade financeira. Sempre é preciso captar mais e mais, ainda falta, ainda está no vermelho… É  bem difícil. Esse ano especialmente foi assim. PARATY.COM.BRUm ano difícil por conta da realização da Copa... BELITACopa, eleições, tudo isso fez cair muito a captação para vários outros projetos. Daí algumas mudanças no formato da Flip deste ano. Mas é engraçado como essas mudanças geradas pela necessidade de cortes foram positivas para o desenho da festa de 2014. Veja no vídeo quais são as mudanças de formato nessa Flip 2014:

PARATY.COM.BRParaty durante a Flip se transforma. E hoje em dia, a programação paralela é intensa!  Casa Folha, Casa Sesc, Instituto C&A… Como é o envolvimento da Casa Azul com essa extensão? BELITAÉ um alinhamento super próximo. São Casas de parceiros mesmo, instituições, empresas ou instituições culturais parceiras da Casa Azul, que querem ter um espaço durante a Flip. A gente nunca estimulou, pelo contrário, a montagem de estandes em Paraty. Achamos que a visão que o visitante e o morador têm da cidade como um todo,  do casario, é bonita demais. E importante que seja preservada. Tentamos que as nossas instalações não tenham uma competição com a estrutura da cidade, com as construções, os prédios. Nossa meta é sempre fazer menor ou numa posição que não tire o visual. E como falei, a gente não quer a distribuição de estandes. São muito legais os eventos que essas casas parceiras promovem, costuma ser uma programação bem rica, que atrai muita gente. Então, tudo bem. Mas que aconteçam dentro de casas que já existem. Aí sim, bacana. Quando a Flip começou, não havia um evento nesse formato no Brasil. Então, mesmo em Paraty, por mais que a gente estivesse aqui, o dono do restaurante, o dono da pousada não sabia muito bem o que estávamos falando. Então nos preocupamos em criar alternativas para o público, opções legais para a noite. Combinávamos, por exemplo, com algumas casas noturnas, e levávamos artistas para tocar lá. Com o tempo a cidade foi se apropriando disso. Cada um agora faz a sua programação. A Off Flip, por exemplo, cresceu, oferece muitas opções legais. Há o selo literário, o prêmio literário. E as casas parceiras, aquelas que agem como “ah, a Flip é tão bacana, quero estar associada a ela” só somam com isso. Eu entendo que seja bom o público ter várias opções e encontrar ambientes muito gostosos. Há debates com autores incríveis, que possibilitam ao público uma proximidade inédita, sem contar a chance de encontrar nesses tantos lugares, além da tenda da Flip, autores junto com autores, cineastas junto com cineastas… São empresas que vêm conversar com a Flip, pensar junto a melhor forma de participar. PARATY.COM.BRvoltando a falar daquele estar junto da equipe, de sintonia de trabalho, você e o Mauro Munhoz já estavam casados quando começou a Flip? BELITAOlha, a gente se casou em 2000. Estávamos morando juntos, sim, em 2003, na  primeira Flip. PARATY.COM.BRAgora separados, como é orquestrar a Flip? Tornou-se um desafio ainda maior ou vocês conseguem uma relação profissional harmoniosa? Há algum segredinho para a  sintonia entre vocês continuar? BELITAEu acho que a sintonia continua, sim. Quando o casamento acaba é porque ele tem alguns ruídos. E esses, sim, podiam estar atrapalhando a parte profissional. Ainda bem que a gente conseguiu se separar. Então aquelas questões, o que eu estou chamando de ruídos, não interferem mais no trabalho. Não sei se fui clara, mas eu acho que um casamento problemático ou que está enfrentado dificuldades, isso sim pode comprometer o trabalho. A gente se separou muito na boa, somos amigos, e esse lado profissional nosso melhorou. Acho que o segredo é a confiança. É conhecer o outro. Como a gente já se conhecia há muitos anos, inclusive trabalhando juntos, um sabe a lógica do outro. Sabemos os princípios que achamos importante seguir. Já sabemos conversar por telefone, por skype, fazer uma reunião presencial de vez em quando. Como é que você alinha isso? Pela confiança, por conhecermos um ao outro. E nisso o passado todo ajuda. A gente troca figurinhas profissionais e pessoais até hoje. Isso é bom. PARATY.COM.BRMais um pouquinho de vida pessoal, pode ser? Você vem de uma família de muitas mulheres, mulheres fortes. Quantas irmãs você tem? BELITASomos em nove irmãs. E sou neta de uma mulher muito forte, a mãe da minha mãe. PARATY.COM.BRSua mãe, Maria Izabel, nome de cachaça com grife. Forte ela também e ajuda a fazer a história célebre da cachaça em Paraty! Para completar essa linhagem de mulheres, você ainda tem uma filha. Como é essa herança tão  feminina na sua história de vida? BELITABem, eu não sei como seria de outro jeito, né (risos)?… Meu pai também é uma pessoa forte. Teve muita e ainda tem muita influência sobre mim. Mas realmente a presença das mulheres é muito impressionante. Minha avó ficou viúva muito cedo. Então eu convivi muito com ela, mas não convivi com meu avô. Meus outros avós por parte de pai são argentinos, moravam distante, agora já faleceram. Então convivi muito com minha avó no meu núcleo familiar mais íntimo, junto com minha mãe, meu pai e minhas irmãs. Agora minha filha! É muita mulher mesmo (risos). Às vezes a gente se reúne na casa da minha mãe… Sei lá, dez, quinze mulheres juntas, irmãs, sobrinhas, primas. Para os maridos, cunhados e para os namorados que a gente arranja, quando eles se aproximam é um desafio (mais risos), mas eu acho muito bom, sabe? Bom, não, ótimo! Eu descubro a minha força nas forças que eu vejo nessas mulheres. Adoro ter voltado para Paraty, estar mais próxima da minha mãe. Poder mostrar um pouco disso tudo para minha filha. Acho que é uma formação importante para ela essa relação familiar. Essa avó forte que ela tem. A relação com Paraty. Está tudo um pouco misturado na nossa história – mulheres e Paraty. Nossa identidade está amarrada nessas duas forças, nesses dois canais. Acho muito importante a Rosa viver isso. Fico feliz. PARATY.COM.BRA Rosa, nos seus oito anos, é uma leitora? BELITAEla é, sim! E lê bem. A Rosa lê letra de todo tipo, garrancho, letra bonitinha, letra bastão, de imprensa, cursiva… Ela sobretudo lê livros. Pega e lê rápido. Eu às vezes fico até mal, porque compro um e, quando vejo, vuuum, ela já leu! Aí eu falo: “Pô, filha! Tem que usar mais a biblioteca e menos a livraria, porque pesa no bolso, né?” O preço do livro no Brasil ainda é dureza! Temos um costume antigo, desde que ela era pequena, de ler juntas. Sempre temos um livro grosso para ler noite após noite, avançando um pouquinho na história. Ela gosta muito desse ritual. PARATY.COM.BREla, então, é uma frequentadora assídua da Flipinha? BELITANão, que nada! Ela é traumatizada por causa da Flipinha!   Afinal, queira ou não, acho que é porque quando está acontecendo a Flip, a Flipinha, tanto o pai quanto a mãe dela estão ausentes. E, claro, ela sente, por mais que a gente tente dar atenção e estar junto dela. Mas esse ano tudo vai mudar. Porque eu acho que ela já está numa idade que a permite me acompanhar mesmo. Dessa vez ela não vai ficar longe da mãe, não, pretendo trazer a Rosa comigo  uma parte grande dos dias da Flip, sabe? PARATY.COM.BRE você, qual é o seu livro de cabeceira? Seu autor preferido? Dá tempo de ler tudo o que a Flip mostra? BELITAOlha, minha mesa de cabeceira é uma pilha. Às vezes eu acho que está grande demais, daí eu tiro uma parte dos livros, mas a pilha continua… (risos). Livros de contos, um deles é do Milton Hatoum de contos. Leio algum, paro, vou ler outra coisa, volto… Tem autores estrangeiros, brasileiros também. Mas eu não sou uma pessoa que lê bastante literatura. A cada Flip eu me prometo, ah, vou ler todos os autores dessa Flip… E não leio, só alguns…Às vezes porque coincidiu ser um livro que me pegou mais,  independente do autor ter estado na Flip. Ou porque eu conheci o autor na Flip mais pessoalmente e fiquei curiosa, mais interessada pelo que ele escreve. Mas há livros que parecem puxar você, a gente não consegue parar de ler. Nem se sabe porque aquilo interessa tanto…Mas é difícil dizer um autor preferido. Leio também muita coisa que não é literatura, sobre taoísmo, por exemplo. Leio o  Tao Te Ching. Textos que têm a ver com tai chi, que pratico e gosto muito! PARATY.COM.BRAs coisas da mente te interessam… BELITAMe interessam, sim. PARATY.COM.BR Você diria que esse tipo de leitura é um motor na sua vida? É como fazer tai chi chuan? BELITAÉ. Eu pratico tai chi de maneira regular, tento praticar todos os dias. E dou aula. Vou semanalmente a São Paulo só pra praticar dois dias intensos – uma tarde, noite, uma manhã – e volto para cá. Adoro! Foi muito importante ter começado. Parei de praticar por  muitos anos e voltei em 2009. Não quero mais abrir mão. PARATY.COM.BR E o que te excita mais na vida? Trabalhar, viajar, namorar. O quê? O que para você é imprescindível realizar? “… criar minha filha de uma maneira legal…Tomar banho de cachoeira, fazer uma trilha na mata… Gosto de pôr o meu pé no chão dessa cidade, saber que pisei nesse chão desde pequena… As mesmas casas, o mesmo horizonte, o mesmo barulhinho do motor no passeio de barco…Eu não sou uma pessoa que vim da literatura, sou formada em física, estudei matemática, essas coisas, mas lógico, sempre lendo… Acho que literatura entra de um jeito na gente que cria espaços internos que não existiam antes, e que duram uma vida inteira…O que me causou ler Cem Anos de Solidão, há vinte anos, sei lá, está entranhado para sempre… O que motiva, o porquê de eu estar na Flip é por Paraty… Gosto de estar aqui, me sentir conectada com as pessoas, com o lugar, com as árvores…Meu trabalho é para alimentar isso… Para que esse entorno floresça e eu floresça também… Beneficiar Paraty…Meu trabalho é na Casa Azul, mas não é para a Casa Azul ou para a Flip. É para Paraty.” Veja a resposta completa da Belita no vídeo:

PARATY.COM.BRPor esse desejo cuidadoso, amoroso mesmo, desde o início, em 2003, de  envolver as pessoas da cidade, as crianças e jovens e professores, especialmente, me parece que a Flip não poderia acontecer com essa intensidade em outro lugar. A Flip passa um sentimento de que é uma festividade ancorada em Paraty. Você acha isso um exagero? BELITANão, de jeito nenhum. A Flip criou raízes mesmo, ela se relaciona de uma maneira atemporal com a cidade, com o que foi Paraty na década de 1960. É como se a gente abrisse um túnel do tempo e visitasse raízes que foram plantadas, as nossas raízes culturais estão também na influência dos intelectuais que passaram por aqui naquele tempo, anos 50, 60. Aquilo deu uma semente que germinou em quem era criança e virou adulto, em quem era adulto e ainda está vivo. Esse legado faz parte da nossa identidade. Sou da opinião de que Paraty não pode correr o risco de perder sua identidade. Porém, como se faz para mantê-la numa cidade como essa? Para que não seja  devorada pelo turismo, pelo que vem de fora?… Como um lugar pode não ser devorado pela especulação imobiliária? Como fortalecer essa identidade que não pode ser destruída? Eu digo que é dialogando com o entorno. É justamente porque a identidade está garantida que se pode relacionar com o entorno, não é assim? Mas sem virar uma cidade turística como tantas outras, onde é fácil se perder o gostinho único de estar naquele lugar… PARATY.COM.BRPara finalizar, Belita, diga para nós qual é a missão da Casa Azul?

Belita na frente da Biblioteca Casa Azul, na Ilha das Cobras - Foto: Ricardo Gaspar
Belita na frente da Biblioteca Casa Azul, na Ilha das Cobras

BELITAIluminar raízes culturais. A gente está aqui no bairro da Ilha das Cobras, um local que conta muito das raízes de Paraty. O centro histórico também reúne registros valiosos dessas raízes. O que têm os artistas, os intelectuais que frequentam a cidade, o que carregam consigo, tudo isso conta muito também das raízes de Paraty. E como fazer para iluminar essas raízes e espelhar essa riqueza de forma explícita nesse território que a gente habita? A materialização disso se dá por meio da arquitetura, do urbanismo, da literatura e especialmente da educação.

O que a Belita recomenda ao turista, o que ela acha que deve mudar e o que não deve mudar em Paraty

 “…É maravilhoso se perder nas ruazinhas do centro histórico…Conhecer o lado da cidade que normalmente é invisível ao turista… O cais de pesca, os barcos nos estaleiros… Obviamente fazer um passeio de barco…Para voltar banhado de azul… Num banho de cachoeira, pensar que há quinhentos anos, quem estava ali viu essa mesma paisagem intacta… E uma cultura viva muito legal… Novos grupos musicais despontando… Ouvir uma ciranda, e se o turista é bem feliz, dançar uma ciranda…… Infraestrutura, saúde, transporte, educação… Soluções que garantam uma qualidade de vida para o morador e uma experiência de qualidade para o turista…Não tem saída, tem que mudar……Não pode ser perdida a identidade… As festas tradicionais… O gosto do paratiense, sua relação com arte, cultura, música, literatura… O pensar o mundo. O criar….” Veja no vídeo as respostas completas e suas recomendações  ao turista .

 

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Histórias de vida e de lugares sempre me interessaram. Como jornalista, sou movida a ideias e boas pautas. Desde 2004 escolhi viver em Paraty, onde sou mais leve e contemplativa. Trabalho em casa, no meu escritório com alma e vista para o verde, e não me desconecto. Assumo completamente que o ambiente digital é uma das minhas praias preferidas, ainda mais agora, integrada à equipe do www.paraty.com.br . Escrever sobre Paraty, dirigindo-me a quem mora por aqui e a quem chega para curtir a cidade, é uma das minhas grandes fontes de prazer e inspiração. Outras são a fotografia e a cor azul, que me levaram a criar o blog http://adoroazuis.blogspot.com.br, para expressar o que encontro de azul no mundo. Claudia Ferraz

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